2021-07-08

ESCURIDÃO E CLARIDADE


 

Escuridão e Clareza

Sociologicamente falando a escuridão e a clareza, como fenómenos naturais, transportam consigo, uma enorme ambiguidade, originando múltiplas valências, contraditórias com o Social, Político e Cultural. Assim estamos perante uma problemática declarada e profundamente antropológica.

Perante a escuridão e a claridade com todo o espectro de luminosidade, formatam/condicionam a nossa vida, a comunicação, a avaliação dos problemas que surgem, assim como nas obras de arte que criamos, sejam pinturas, poesia, romance, cinema, teatro ou música.

Acrescentemos o modo como a escuridão e a claridade do espaço e do tempo marcam presença nas relações de poder, seja de natureza capitalista, racista, sexista ou religiosa, assim como nas relações de resistência e de convivência.

A noite e o dia

A noite e o dia, desde os primórdios, destacam-se como formas divisórias  no âmbito da  sociabilidade e das relações com a natureza. A observação do céu para interpretar os astros optimiza-se na escuridão. O conhecimento dos astros era crucial para saber as horas, prever as condições meteorológicas, navegar em águas desconhecidas, decidir os trabalhos e os ritmos agrícolas, adivinhar o futuro, etc. Também a vida dos animais se regulava pelos astros.

Ao longo de milénios, o tempo diurno contrastou com o tempo nocturno estruturando a vida social. A noite como tempo de descanso, mas também, dos perigos, dos excessos e dos prazeres ilícitos. Na Idade Média, apelidada de “a idade das trevas”, andar de noite representava o perigo: ladrões, assassinos, bruxas, mas também as fezes e outros lixos atirados das janelas, como causas.

Segundo os relatos da vida doméstica medieval, era típico o casal deitar-se depois do pôr do sol, dormia quatro horas, acordava e ficava na cama mais duas horas a conversar e a amar. Com o aparecimento da luz  levantava-se para trabalhar.

Coincidindo com a designação da “idade das trevas (sobretudo no século XIX) o colonialismo foi afirmando a superioridade da Europa sobre o “continente escuro” habitado por “gente escura”.

O capitalismo impôs uma forte disciplina sobre os trabalhadores, traduzindo-se isso numa crescente vigilância da noite, período em que a burguesia tinha menos controle sobre as “classes perigosas. A escuridão dos bairros  aumentava a suspeita dos possíveis comportamentos depravados ou revoltosos.

A luz natural e a luz artificial.

 A luz artificial a partir do século XIX introduz profundas transformações nas relações entre a noite e o dia. Ao clarear a noite muitas tarefas confinadas ao dia passaram a serem realizáveis também à noite, resultando isto num progresso extraordinário, mas não era politicamente inócuo, acabando por produzir efeitos perversos. A iluminação pública surgiu assim como uma forma de biopolítica, disciplinar os corpos por via de maior vigilância em nome do progresso e da manutenção da ordem.  A apetência pela cidade que não dorme tornou-se irresistível, ocorrendo também alguma resistência. Os primeiros candeeiros públicos a gás foram apedrejados por aqueles cuja escuridão da noite era considerada uma condição essencial da sua sobrevivência ou profissão, fossem ladrões, prostitutas, artistas, traficantes de drogas, boémios ou revolucionários.

A crescente luminosidade artificial leva os artistas, ainda que menos condicionados pela divisão do dia e da noite, passarem a preferir a escuridão para cultivo da criatividade, procurando em caves, bares, túneis, canais de esgoto, periferias urbanas ou no campo.

A escuridão transformou-se numa nova atracção, um divertimento público, ambiente propício para a evocação de espíritos em sessões espiritistas ou para filmes de terror. Prospera hoje uma economia da noite em que a escuridão é um elemento fundamental do sublime urbano nocturno.

Quanto mais brilha a terra, mais o firmamento se esconde. A iluminação excessiva produz uma nova forma de cegueira. Até ao início do século XX, era possível ver à noite e a olho nu cerca de 2.500 estrelas. Hoje, vêem-se menos de uma dúzia. Será um problema  para os astrónomos, mas tem muitas outras ramificações, na vida dos animais humanos e não humanos, na saúde mental, na aprendizagem, nos ciclos de vida. Numa grande cidade (do Norte global), o céu à noite é 25 a 50 vezes mais claro que o céu nocturno natural. As aves migratórias são algumas das vítimas da poluição da luminosidade.

O fim do dia e da noite.

Quando excessiva, e aqui o paradoxo, a luz artificial revela o seu lado escuro, criando uma desconexão com a natureza, com os astros e o consequente empobrecimento da relação com o mundo mais amplo em que nos inserimos.

Além disso, os seres vivos têm ciclos regulados pela luz e pela escuridão. O ritmo ou ciclo circadiano, o ciclo do período de 24 horas regulado pelas variações da luz, temperatura, marés e ventos entre o dia e a noite. A perturbação do ciclo circadiano produz fadiga e desorientação e, se for prolongado, pode causar doenças graves. Não é por acaso que os torturadores de prisioneiros políticos submetem as suas vítimas à tortura da luz.

A intimidade e a violência de género.

 A escuridão é segurança e  protecção, assim como insegurança e de perigo, pode facilitar a agressão ou a intimidade. Os fenomenologistas chamam a atenção para o facto de o sentido da subjectividade ser sensível ao contraste entre claridade e escuridão. Para Merleau-Ponty, a percepção dos contornos físicos da pessoa tornam-se mais ambíguos na escuridão, facilitando a abertura e a entrega ao outro. Imagine-se  quanta confidência ou quanto êxtase sexual exige voz baixa e escuridão ou semi-escuridão!

Conclusão

Abre-se um campo de reflexão para reflectirmos seriamente sobre os esteriotipados conceitos do negativo e do positivo, fruto duma semiótica demasiado classificativa imbuída duma suposta separação entre o bem e o mal, levando-nos a “compartimentos” absolutamente estanques que em nada ajudam tal famigerada e tanto procurada “verdade”. Caso para pensar que afinal ela é o tudo  ou o nada. Concluímos referindo que Lúcifer (etmimologicamente) deriva de Lux, o que leva a pensar pelo menos e no mínimo, a dois conceitos que serão o MAL e o BEM.

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