2021-06-09

AS PROFISSÕES DO FUTURO

 


É um facto que é cada vez mais difícil produzir alimentos de forma sustentável, e já fiz uma referência a esta problemática em “Terra e ANTROPOCENO”.

Acrescente-se e agravando o problema, o glifosato, um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo, classificado como potencialmente carcinogénico. Existe um volume crescente de pesquisas científicas que estabelecem uma conexão entre o consumo de alimentos ultraprocessados e as doenças que mais matam (enfermidades cardiovasculares, diabetes, câncer). 

Foram encontrados resíduos na bebida de soja ;no cereal matinal  tradicional, nos salgadinhos clássicos feitos de trigo e torcida sabor queijo;  nos biscoitos de água e sal ; em bolachas recheadas e mais uma grande série deles.

A palavra incerteza aparecerá muito mais nas nossas vidas e nós aprenderemos finalmente o quanto querer controlar a vida é uma ilusão.

Os sonhos de “sucesso”, de “carreiras bem-sucedidas”, de enriquecimento e prestígio, foram estimulados pela cultura capitalista que construiu o desastre a que estamos assistindo.

Nesses caminhos antigos em que os e as jovens projectaram seus futuros, muitas vezes se criou expectativas frustradas e infelicidade, pela traição dos talentos individuais. De todo modo, a expectativa de dinheiro e prestígio sempre foi para poucos, deixando a maioria esmagadora frustrada e infeliz.

Todas as possibilidades da reciclagem que transformam resíduos em objectos úteis serão valorizadas no mundo onde as lixeiras e aterros sanitários serão tesouros.

Na mudança radical que o futuro certamente trará, é insensato gastar a inteligência e o talento da juventude com perspectivas tradicionais, e numa mensagem particular dirigida à juventude direi que o Mundo não mais será o mesmo.

Melhor vale estar aberta/aberto ao imprevisto e tirar o melhor dele. Quando os sistemas se desestabilizam, principalmente o sistema Terra, as previsões serão mais difíceis, mesmo com todos os avanços tecnológicos.

Por outro lado o que era abundante e nocivo felizmente vai aos poucos acabando: petróleo, plásticos, descartáveis, desperdício, superficialidade, competição exacerbada, consumo insensato.

Produzir comida sã, água limpa, ar puro, solos e matas em recuperação, recriando biodiversidade — a grande riqueza do mundo — serão muito mais prestigiados e é a grande demanda no futuro.

Vocês, jovens de hoje, poderão ajudar a humanidade a dar passos largos na direcção da amorosidade. Convido-a, cara juventude, a abrir os olhos para verem as pessoas e comunidades que já estão vivendo o pós-capitalismo há anos e mesmo há décadas.

O mundo está falindo, mas também recomeçando, e vocês farão essa história não só superando o capitalismo, mas também o patriarcado.

As cidades grandes  são estruturas pesadas e dependentes, com baixíssima resiliência, insustentáveis. Estão cada vez mais caras, poluídas, congestionadas, violentas e nada no horizonte aponta que isso vai melhorar.  Cidades médias e pequenas, ecovilas, vida no campo, tudo isso oferece maior resiliência aos problemas ambientais, económicos, sociais, políticos… Ter um cinturão verde oferece comida mais facilmente, ter um governo mais próximo favorece a democracia, ter famílias e amigos mais perto favorece a cooperação.

Com a pandemia e a aceleração do trabalho remoto, via tecnologias digitais, milhões de pessoas deixaram as cidades e instalaram-se em locais mais calmos mantendo sua possibilidade de trabalho e interacção. Quando tiveram que se manter isoladas em casa as pessoas tiraram muito mais proveito do comércio local.

Dou como exemplo a questão dos alimentos trazendo algo que hoje já faz sucesso em meio à juventude mais criativa: as PANCs, Plantas Alimentícias Não Convencionais ou os incredibles edibles, os incroyables comestibles, etc. Sabe aquela plantinha que está ali na esquina, resistente e que cresce sem cuidados? Ela pode ser uma PANC muito nutritiva. Quando a ciência fala que pelas mudanças climáticas será difícil continuar cultivando os alimentos a que estamos acostumados nos lugares em que sempre foram cultivados, nossos olhos podem se abrir para outras possibilidades nutritivas. Na Índia está sendo feita a experiência da substituição do arroz pelo Mileto, um cereal muito mais nutritivo e resiliente às mudanças  climáticas e que precisa de menos água.

2021-05-20

AS TREVAS E A LUZ

 




A filosofia ocidental cultiva um binarismo, que originou as oposições simplificadoras de nosso tempo: por que é que existe o ser em vez do nada?  Esta pergunta foi feita por Leibniz na Teodiceia, mas está igualmente presente nas filosofias orientais, tanto na indiana como na chinesa. A radicalidade da pergunta reside em que, sendo aparentemente tão simples, não é possível dar-lhe resposta.

Peguemos noutro binómio quiçá mais aliciante: por que é que existe a luz em vez das trevas? Podemos relacionar o ser com a luz e o nada com as trevas.

A oposição entre as trevas e a luz e o trânsito de uma para outra está presente em todo o pensamento antigo, laico ou religioso.

Para as pessoas cegas, a escuridão é tudo, sendo a partir dela que constroem corajosamente a luz nas suas vidas. As pessoas que veem, o nada das trevas ou escuridão é um nada pleno  de sentidos e conteúdos, que variaram ao longo da história e variam hoje segundo os contextos. A escuridão tanto pode significar o medo de algo no escuro como o medo da escuridão. Óbvio que a escuridão pode ser protecção e absolvição. Assim como a luz pode ser a divindade ou a escuridão. A muita luz não me permite ver as estrelas no céu. Em face desta diversidade e ambiguidade podemos sempre perseguir ou procurar algo no sítio errado; dito de outra maneira se calhar a “verdade” não está na luz mas sim na escuridão.

Recordemos por um instante a Alegoria da Caverna, Platão  na República (514aC-529aC) , imagina os humanos acorrentados no interior duma caverna e virados para uma parede. No exterior há uma fogueira e entre ela e a entrada da caverna circulam pessoas com objectos. Os seres humanos presos na caverna não veem mais que as sombras dos objectos e tomam-nas por realidade. Um deles sai da caverna e, depois de se habituar à luz do sol, vê finalmente a verdadeira realidade dos objectos cujas sombras vira antes projectadas na parede da caverna. Regressa à caverna, conta o que viu, mas os seus companheiros não acreditam e ameaçam matá-lo. Com esta alegoria, Platão pretende mostrar a oposição entre as falsas crenças e o verdadeiro conhecimento. Nos séculos posteriores, esta alegoria e a metáfora da luz continuaram a ser usadas de múltiplas formas.

No pensamento oriental, chinês e indiano, as metáforas conceituais são distintas, mas a relação entre a luz e escuridão persiste. Confúcio (551 aC-479 aC) exortava os seguidores a acender uma vela em vez de insultar a escuridão, ao mesmo tempo que lhes assegurava que nem toda a escuridão do mundo era capaz de apagar uma vela, mas digo eu,  nem toda a luz do mundo consegue eliminar a escuridão. No pensamento e religião islâmicos, a conexão conceitual entre a luz e a iluminação como metáforas do aprofundamento espiritual está igualmente muito presente. Atribui-se ao Profeta Maomé o dito “o conhecimento é a luz”; e no Alcorão a luz da revelação é contrastada com a escuridão da falsidade. al-Suhrawardī (1154-1191) é quem oferece a hermenêutica mais complexa da luz ao ponto de inspirar uma nova escola de pensamento, a Escola da Iluminação. No Budismo, o conceito de Iluminismo  aspira não à verdade sobre o mundo; é antes a verdade sobre cada um, o auto-conhecimento, em vez do conhecimento exterior.

De facto, todo o pensamento místico, qualquer que seja a sua raiz filosófica ou religiosa, concebe a aproximação à divindade como a intensificação da luz.

No mundo europeu moderno, os processos de secularização trouxeram consigo para a epistemologia as imagens binárias da luz e das trevas. O conhecimento e a verdade passaram a ser a luz, a claridade, enquanto a ignorância e a falsidade passaram a ser as trevas, a escuridão. A máxima expressão desse transplante ocorreu, na cultural ocidental, com o Iluminismo do Século das Luzes. O nome diz tudo.

Muitos dos binarismos que continuam a assombrar a vida contemporânea (homem/mulher, branco/negro, humanidade/natureza, razão/emoção, forma/conteúdo) têm uma longa tradição no binarismo claridade/escuridão. Ao longo dos tempos, alguns autores foram chamando a atenção para a complexidade, as misturas e as interpenetrações que tais oposições escondem.

Giordano Bruno (1548-1600) introduz uma mediação entre os opostos – a sombra. Bruno atribui um valor positivo à sombra, já que esta é a medida da verdade que é acessível aos humanos. Foi uma figura fulgurante que pagou com a vida o seu fulgor. Foi excomungado tanto pela igreja católica como pelas igrejas protestantes, e queimado vivo pela Inquisição. Ele afirmava que o reino dos seres humanos são as sombras. As sombras podem ser de diferentes tipos, mas é na sombra que estamos condenados a viver, A luz é uma roupa que induz em erro, mas apenas porque a nudez da verdade nos está vedada. A luz não está ao nosso alcance, mas a sombra contém vestígios de luz (lucis vestigium).

Torna-se obvio que as trevas e a luz contribuem igualmente para a produção da sombra. Nenhuma é nada e as duas são tudo.  Bruno foi considerado arrogante ao defender que se Deus é infinito e o mundo foi criado à Sua imagem, o mundo é igualmente infinito e cada átomo de vida, por mais ínfimo, tem uma dimensão espiritual, ou seja, alma. Existirá aqui um apelo, à humildade do humano. Em todo este percurso,  apenas um dos sentidos dos seres humanos é mobilizado – a visão. Não significará isto uma limitação auto-imposta? O que se perde nessa limitação? O que se ganharia em termos de compreensão do mundo e da sociedade se em vez de mobilizarmos apenas um dos sentidos mobilizássemos todos eles? Poderemos submeter o monopólio da visão a uma sociologia  das ausências?

O sábio indígena (América Latina) escuta a realidade (a terra, o céu, a paisagem) em vez de a ver apenas, sente-a, apalpa-a, toca-lhe, saboreia-a, em vez de simplesmente a observar. É um sentir pensar que não reconhece a dicotomia sujeito/objecto e mobiliza todos os sentidos. A recorrência das pandemias transmitem-nos mensagens inquietantes da natureza sobre a insustentabilidade dos modelos de produção e de consumo que dominam a vida contemporânea, as filosofias indígenas oferecem possibilidades de compreensão da realidade e de transformação social que vão muito para além das que a tradição predominantemente visual pode oferecer.

Não se pretende a  substituição  de uma tradição por outra, trata-se antes de as integrar a todas num paradigma de filosofia intercultural.

Temos que definitivamente entrar na era do PENSAMENTO COMPLEXO.

2021-05-18

A MERITOCRACIA ANGOLANA

 

Meritocracia pode ser entendida como um sistema de hierarquização e recompensa baseado nos méritos pessoais de cada indivíduo. Etimologicamente, vem do latim meritum (mérito) e cracía (“poder”). O poder do mérito assenta na suposição de qualidades individuais, resultado dos seus esforços e dedicações. Este termo é relativamente recente e foi utilizado no livro “Levantar da Meritocracia” de Michael Young,  em 1958. Nessa altura, o termo apresentava uma carga pejorativa, fruto da narração de uma sociedade que acabaria por ser segregada devido a dois  aspectos: a inteligência (QI elevado) e um grande nível de esforço.

Para produzir as identificações é necessária a visibilidade pelo sucesso o que nos leva a caminhar em círculos, estando em jogo a aliança  formada entre a midia domesticada da meritocracia e o mercado para produzir um número elevado de gente de sucesso para que haja uma produção incessante de identificação com as pessoas de sucesso. Diremos assim que as melhores posições hierárquicas estão condicionadas às pessoas que apresentam os melhores valores educacionais, morais e aptidões técnicas ou profissionais específicas e qualificadas em determinada área.

Em relação ao meu País (Angola) e como diz a canção “ angolano IMVEEENTA, mas porquê, mas porquê? O padrão aqui para ter acesso aos melhores postos de trabalho rege-se pela famosa e descarada trilogia: partidarismo, religião e família. No meu entender essa a grande razão para o insucesso de grande parte dos projectos angolanos. Convém não esquecer que “cunhas quadradas em buracos redondos não encaixam”, acrescente-se a falsificação de muitos títulos académicos para completar o quadro de insucesso da sociedade angolana.

2021-05-13

CULTURA VIVA

 


As corporações controlam as redes e para fugir a este agrilhoamento, é preciso investirmos no sentir-pensar-agir, suportado pela diversidade real e vida comunitária. Assim teremos uma robusta resistência às lógicas de padronização e da globalização.

Quando os sistemas Mercado, Estado, Igrejas, e também a Educação, se entrelaçam em um só sistema, impõe-se o poder absoluto, e a CULTURA VIVA,  por contraponto à cultura da tradição e do “porque era assim” tem tendência a definhar.

A mídia monopolista não pode ser compreendida como um sistema próprio – porque depende dos demais sistemas –, mas como meio de alinhavar os outros sistemas, formatando a sociedade a partir da lógica destes.

Mesmo aquela mídia distribuída, via redes sociais, não pode ser interpretada como alternativa à mídia monopolista e vertical, porque ela sofre o controlo das lógicas próprias de poder e mercantilização dos afectos, porém mediados por algoritmos. Quando ocorre esse alinhamento e convergência a ditadura perfeita, ganha espaço em processos de totalitarismo. É o que está ocorrendo no mundo actual.

A necessidade de separarmos os poderes é tão somente para rejeição dos totalitarismos, despotismos e tiranias, cabendo regular as relações entre Estado e Mercado, Estado e Religião e Estado e Educação. Contém também o estabelecimento de um sistema de pesos e contrapesos para o sistema Estado, com separação e equilíbrio entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Se um sistema impõe sua lógica sobre os demais,  imiscuindo-se nas atribuições do outro, ou quando um sistema se deixa subordinar a outro, estabelece-se um ambiente pantanoso e corrompido, propício à promiscuidade na relação do Estado com os demais sistemas (mercado, Igrejas, educação).

Desde o final do século XX, o mundo vive um quadro de profunda instabilidade, com a globalização em uma tendência de concentração e estabelecimento do poder absoluto, como nunca antes houve na história.  Veja-se a obscena concentração de renda, em que apenas oito (exatamente, oito) pessoas possuem riqueza equivalente à da metade mais pobre da população mundial. Essa concentração de riqueza faz as regulações construídas pelo processo civilizatório, sobretudo nos últimos dois séculos, serem desfeitas, produzindo o desfazimento das fronteiras entre sistemas, em um perigoso processo de concentração de poder. Os Estados vão perdendo poder, mas não para suas populações, e sim para poderes extranacionais, incontroláveis em suas ganâncias. Com estados enfraquecidos, o mercado impõe as regras.

O contraponto a esse processo avassalador, de implantação do poder absoluto, só poderá ser encontrado no mundo da vida, está na cultura do encontro e na cultura viva, sobretudo aquela que se estrutura a partir de bases comunitárias e ancestrais, em que os valores preponderantes sejam os da própria vida. A força desses valores da vida precisa ser abastecida no solo fértil do comum. E esse solo se encontra nos ambientes comunitários e ancestrais.

. O objetivo é o mesmo – a superação de um sistema que “humilha dignidades, insulta honestidades e assassina esperanças”4 –, mas são outras formas de pensar e realizar a ideia de Revolução, em que não basta conquistar o mundo, pois é necessário fazê-lo de novo.

Em vez de humanidade nos oferecem índices das bolsas de valores, em vez de dignidade nos oferecem globalização da miséria, em vez de esperança nos oferecem o vácuo, em vez de vida nos oferecem a internacional do terror.

A unidade, acima de fronteiras, línguas, cores, culturas, sexos, estratégias e pensamentos, de todos os que preferem a humanidade viva.

A internacional da esperança. Um alento sim, um alento da dignidade. Uma flor sim, a flor da esperança. Um canto sim, o canto da vida.

KimdaMagna

2021-05-11

ANTROPOCENO

 



Os preços dos alimentos disparam. Água e comida não podem ser reféns do mercado… A água e a comida são dois bens essenciais para a vida de qualquer espécie viva da Terra. Desde os tempos bíblicos a fome assusta as diversas populações nacionais. Historicamente, a fome está sempre associada a revoltas e revoluções. Aumento da carestia é sempre um alerta.

Observemos alguns dados históricos e porque muitos tem a memória curta, segundo o FFPI (Índice de Preços de Alimentos) da FAO, houve um curto pico acima de 120 pontos na década de 1970 ( choque do petróleo) tendo baixado entre 1985 e 2005. No século XXI a perspectiva é de alta. Embora os preços dos alimentos tenham caído no início da pandemia a partir de Maio de 2020 voltou a subir e o preocupante é que os preços voltaram para o patamar de 120 pontos.

A fome é uma constante na história humana e seria ilusão imaginar que o mundo estaria livre desta ameaça. O maior volume absoluto de óbitos provocados pela desnutrição aconteceu na década de 1870, quando 20,4 milhões de pessoas morreram por inanição no mundo.

Na década de 1880 o número de vítimas caiu para menos de 3 milhões, mas voltou a subir para quase 10 milhões na década de 1890. Surpreendentemente, o número de óbitos por fome diminuiu na década de 1910 – quando houve a Primeira Guerra Mundial – mesmo sendo o número de 2,6 milhões ainda muito elevado. Na década de 1920 a fome cresceu muito novamente, atingindo 16 milhões de vítimas fatais devido, principalmente, à situação da União Soviética e da China. Na década de 1940 – quando aconteceu a Segunda Guerra Mundial – a fome bateu todos os recordes do século XX, com 18,6 milhões de vítimas. Na década de 1960 a fome voltou a assustar, mas principalmente pela grande crise provocada pelos equívocos da política de “Um grande salto para frente” da China, mas o número de vítimas da insegurança alimentar diminuiu muito no mundo nas décadas seguintes, sendo que o número de mortes atingiu o menor nível na década passada (2011-20).

Assim e posto esta pequena incursão no histórico da fome, constatamos que as conquistas do último século podem não durar para sempre. O pandemónio económico provocado pela covid-19 tem desarticulado a cadeia de produção de vários produtos e tem gerado aumento do preço global da comida, devido a 5 factores: aumento dos custos de produção e transporte; desorganização da cadeia produtiva global (gerando gargalos na produção e distribuição); aumento do preço do petróleo; danos causados pela crise ambiental; e desvalorização cambial.

É um facto que é cada vez mais difícil produzir alimentos de forma sustentável e o relatório “Climate Change anda Land” sobre  Mudanças Climáticas (ONU 08/08/2019), mostra-nos  que na conexão entre o uso da terra e seu efeitos sobre a mudança climática há um efeito perverso de retroalimentação entre as duas coisas, pois a produção de alimentos aumenta o aquecimento global, enquanto as mudanças climáticas decorrentes ameaçam a produção de alimentos. Bem estamos aqui perante uma problemática que de maneira nenhuma poderá ser resolvida por “curiosos”, pseudo cientistas , “camaradas”, kimbandas ou  pastores das igrejas. O devir EXIGE pessoas com real e profundo conhecimentos das “malambas da vida”.

O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mostra, de forma inquestionável, que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura actualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce. Cerca de 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e 80% do desmatamento global só por conta do sistema alimentar.

O sistema alimentar mundial actual pode alimentar apenas 3,4 bilhões de pessoas sem transgredir os principais limites planetários, de acordo com uma análise do sistema agrícola global. Todavia, a reorganização da produção de alimentos – alterando a forma de cultivar e modificando a dieta quotidiana predominante – possibilitaria alimentar até 10 bilhões de pessoas de forma sustentável segundo o Trabalho Académico publicado na prestigiosa revista Nature Sustainability (Gerten et. al, 2020).

 Não devemos continuar a produzir mais alimentos à custa do meio ambiente para isso existem quatro pontos importantes para a agricultura: não usar muito nitrogénio, o que causa zonas mortas em lagos e oceanos; não tirar muita água doce dos rios; não derrubar muita floresta; e manutenção da biodiversidade. Mas metade da produção de alimentos hoje viola esses limites. No entanto, essa análise também é a primeira a fornecer informações sobre onde, geograficamente, esses limites estão sendo transgredidos.

 

Olhando para o período de Março a Julho de 2021, há 20 países e situações onde há uma probabilidade de maior deterioração da insegurança alimentar aguda, devido a múltiplas causas da fome que estão interligados ou se reforçam mutuamente, estes são principalmente conflitos dinâmicos, choques económicos, impactos socioeconómicos da COVID19, extremos climáticos e a difusão de pragas vegetais e doenças em animais. É claro que Àfrica está dentro destas perspectivas; direi em linguagem vernácula África está sempre a levar no “mataco” Um grupo específico de pontos críticos – destacados na figura em anexo, são particularmente preocupantes devido à escala, gravidade e tendências das crises alimentares existentes. Em algumas  áreas desses países, partes da população estão experimentando uma situação crítica de fome, com esgotamento extremo dos meios de subsistência, consumo insuficiente de alimentos e desnutrição aguda elevada.

Em relação a Angola é um facto que o custo da cesta básica disparou e está bem acima da inflacção, enquanto OS SALÁRIOS “estacionaram”.

Em conclusão diremos que havia duas ideias veiculadas pelos demógrafos, uma dizendo que o preço dos alimentos iria diminuir a outra que ele iria aumentar No dia 09/04/2021 a IUSSP (International Union for the Scientific Study of Population) e a PAA organizaram o “Webinar on Population, Food and the Environment” onde ficou claro que o preço dos alimentos continua alto e subindo.

 O Povo Angolano está com fome de comida e fome de justiça.

Gerten, D., Heck, V., Jägermeyr, J. et al. Feeding ten billion people is possible within four terrestrial planetary boundaries. Nat Sustain (2020) doi:10.1038/s41893-019-0465-1
https://www.nature.com/articles/s41893-019-0465-1#citeas

IPCC. Climate Change and Land. An IPCC Special Report  on climate change, desertification, land degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems, 08/08/2019
https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

IUSSP/PAA Webinar on Population, Food and the Environment, 09/04/2021
https://www.youtube.com/watch?v=5Bj-kUttadQ

SEQUESTRO DA AMIGDLA


A amígdala fica na base do cérebro e canaliza sinais emocionais fortes que podem neutralizar o córtex pré-frontal, impedindo-nos de tomar decisões racionais. Ameaçados ou irados, origina-nos uma resposta de luta ou fuga, impedindo a capacidade de raciocinar. Ao atacamos irracionalmente, dizendo coisas estúpidas  desencadeamos o sequestro de amígdala em outras pessoas. É mais ou menos assim que as redes sociais funcionam.

Estaremos mergulhando, em todo o mundo, num ciclo letal de fúria e reactivismo, que bloqueia a conversa fundamentada da qual depende a vida cidadã?

Oportunistas políticos que usam agressão, mentiras e indignação para abafar os argumentos sempre existiram. A raiva e os desentendimentos que as redes sociais geram, exacerbados por fábricas de insultos, robôs e publicidade política secretamente influenciada transbordam para a vida real.

Era impensável poucos anos atrás ,os políticos e comentaristas usarem a violência verbal.

Alguma neurociência acompanhada pela psicologia sugerem que, na vida pública, as ameaças e o stress tendem a  auto perpetuar-se. Quanto mais ameaçados nos sentimos, mais nossas mentes são dominadas por reflexos involuntários e reacções impensadas.

Suspeito que os demagogos – ou seus conselheiros – saibam o que estão fazendo. Instintiva ou explicitamente, eles compreendem que reagimos irracionalmente a ameaças, e sabem que para vencer precisam nos fazer parar de pensar.

Será então por isso que o nosso querido e amado desgoverno Angolano está a “muscular” o discurso? O plano Covidiano?

Romper a espiral significa restaurar o estado mental que nos permite pensar.

Os eleitores irão agora acordar desse pesadelo, demitir aqueles que fabricaram as crises e restaurar a política pacífica e fundamentada da qual depende nossa segurança? Infelizmente, não parece tão fácil assim.


PERDIDOS NO ESPAÇO E NO TEMPO

 


 

Para nos orientarmos no espaço é preciso ter cruzamentos, norte, torres, sinais luminosos, montes, estrelas… Já em relação ao tempo, precisamos de costumes, manias, pandemias e acontecimentos. Visto assim, aqui deste lado (o meu lado), O Tempo é mesmo O Tempo. Os relógios, os calendários, algumas memórias juntem-lhe as datas comemorativas e as mudanças de estações servem para medi-lo. A ele ao Tempo posso chamar-lhe duração, tipo aquela massa de fazer pão peganhosa entre os dedos.

Aqui começa então a árdua tarefa: precisamos contemplar a duração do tempo   para não nos perdermos .Aquela pequenina fenda entre o tempo e a duração, como entre as conchas de um molusco, tem que estar aberta para que a vida entre. Essa pequena fenda é o que chamamos Espaço. 

A pandemia tapou as conchas do molusco. O Tempo fechou-se sobre a Duração, coincidindo com ela. O Tempo sobrepõe-se à Duração,  não cabe o espaço; logo, consequentemente, não cabem os corpos. Lembranças e projectos turvam-se ou são apagados.

 O tempo duração é, por isso, um pântano não tem bordas, não aquele rio — que vai para a morte — mas um mar espesso sem horizonte para contemplar ao longe, tampouco tem arbustos ou pedras para nos  agarrarmos. Se dissermos: “isso aconteceu amanhã”, “isso ocorrerá ontem”, “isso está acontecendo sine die” é o princípio ou o fim da loucura? Já agora, é legítimo perguntar, haverá “lux” nela? Também Lúcifer deriva de luz e é filho de Deus. 

Um minuto dura mais que um dia porque o minuto deve ser contado e o dia, ao contrário, se desconta quando já passou. Um dia dura, em qualquer caso, mais que um ano. 

“ Os minutos passam tão lentos, como o tempo passa tão rápido”. 

Se escovo os dentes diante do espelho, não posso saber quando estou fazendo isso porque o faço todos os dias. Esse acto é um hábito e uma parte de meu organismo, não de minha agenda. Não preciso me perguntar também se hoje levo um fígado dentro de mim ou as mãos no extremo dos braços, porque tenho o hábito de levá-las sempre. O acto de escovar os dentes, como o de ter mãos, se dá por certo e, consequentemente, não me serve para contar o tempo. Nem me deixa nenhuma lembrança nem sua repetição me ajuda a recordar outra coisa ao meu redor, seja por associação ou concomitância. 

Não posso saber quando estou escovando os dentes porque sempre estou escovando os dentes. Sempre estou conectado à internet. Por isso o hábito, submergido na duração, é o contrário do costume, que implica a ideia de repetição no tempo.  

Os costumes, humanos ou naturais, são repetições no tempo que nos permitem orientar-nos por meio dos movimentos que faz o passado com a memória e os movimentos que o futuro faz com a vontade.

Orientar-se no tempo significa, portanto, inscrever o corpo fora do organismo, em um espaço em que os gestos contam. Os hábitos não ocorrem no espaço. Respiro, escovo os dentes e me conecto à internet em qualquer lugar, em lugar nenhum, em uma duração intestinal sem aura nem mundo. Meu corpo só está em algum lugar quando posso relacioná-lo com outros corpos e, por isso mesmo, situá-lo em um eixo vertical do tempo. 

É preciso entender bem essa questão. Temos isso que chamamos “presente” só porque enquanto trabalhamos recordamos o que estamos fazendo; aqueles que — como em certos casos trágicos de amnésia patológica — perderam a tal ponto a memória que apagam suas experiências no mesmo acto de vivê-las, na realidade não vivem nada. Vivemos, pois, da memória e o que chamamos “presente” não é mais que nosso passado mais recente: dali, por certo, vem a sensação de desassossego, inseparável da condição humana, de que nunca estamos completamente ali, quando beijamos a nossa amada ou na felicidade de ver, pela primeira vez, as flores do Imbondeiro ou as cachoeiras da Binga.

Não estar inteiramente aqui é nossa forma de estar aqui: um beijo esquecido não é um beijo; um beijo que é só recordação — porque meus lábios, ao unir-se aos seus, já estão no passado — é o único beijo que nós, humanos, temos acesso.

Não há “presente puro”.O beijo é dado na pura duração sem tempo do organismo cego, onde a consciência não pode entrar, sequer tarde demais. Enquanto nos beijamos temos a sensação de que “acabamos de nos beijar”. 

Nunca é sincronizado. E pouco serve prestar atenção. Enquanto te beijo, para estar completamente em sua boca, ansiando pelo amor inflamado, tratando de reter esse momento intenso de intimidade, posso tentar lembrar a mim mesmo: “presta atenção: está beijando a Marta”. Mas já — aí — estou perdido: imediatamente a estar recordando. Nenhum gerúndio é presente; todos os gerúndios são um “acaba de passar”: todos os gerúndios, sim, excepto “recordando”. Nunca estou beijando Marta aqui e agora; por muitos minutos que a beijei sem tomar alento, e por mais que continue e continue beijando-a, é algo que já ocorreu enquanto ocorre: uma sucessão mais ou menos longa (oxalá seja longa) de “acaba-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”. Nunca “começamos a”; sempre “acabamos de”. 

O normal é estar sempre “acabando de”, sentimos em seguida a dor da “incompletude”: a nostalgia desse minuto que se escorreu do princípio, a insatisfação de não haver beijado Josefa o bastante. Mas essa dor é sempre melhor do que o nada do escovar os dentes. 

Vivemos no passado, mas também fazemos o futuro, colocando-nos sem descanso diante desse lugar onde vivemos recordando o presente. Isso refere-se à palavra “projecto”. Esperamos certas repetições e preparamos certos acontecimentos. Nosso corpo está em algum lugar porque vamos a alguma parte, com as pernas ou com a mente; porque avançamos pelo espaço em direcção ao futuro.

O presente ocorre no passado e antecipa um futuro do qual nos separamos não só por uma sucessão mais ou menos longa de horas a percorrer, mas por um mato, uma praça, toda a Avenida da Marginal, que é longuíssima. O presente é o passado mais recente, mas também é o primeiro obstáculo para chegar a sua casa ou para que chegue o verão. Nunca chego a sua casa e nunca chega o verão, é verdade, porque uma vez ali já passou. Mas graças a essas tensões insatisfatórias, geradas antes ou depois, nos orientamos no tempo e submergimos completamente na duração intestinal do hábito orgânico sem fronteiras. 

Nossa vida inteira é convertida em um hábito: algo que ocorre sob a atenção de nosso corpo, em seu interior biológico, sem memória nem esperança. Já não há espaço entre o limite do tempo e o limite da duração por onde possa caber até a dor de já ter te beijado, a dor de não ter te beijado ainda. Acredito que a todos nós está passando isso de nos sentirmos  temporalmente desorientados; mal sabemos quais sequelas físicas e psicológicas nos deixará. Se orientar-se no tempo é viver acções já terminadas ou ainda iniciadas, nunca “acabamos de” escovar os dentes porque escovar os dentes é uma acção que não tem princípio nem fim. Não deixa nenhuma memória tampouco contém algum plano de futuro. Não começa. Não acaba. Simplesmente não ocorre.

Os últimos nove meses têm sido, sem dúvida, os mais densos e mais curtos de nossas vidas: passou de uma só vez, em um só bloco, de repente. Uma vez terminada a pandemia, dentro de um ano ou dois, não recordaremos de nada, porque não haverá passado um ou dois anos: haverá passado só uma unidade de tempo. O confinamento tecnológico em que, de algum modo, vivíamos antes mesmo da pandemia, mas que a pandemia, impondo uma forma de necessidade funcional, completou, libertou-nos do corpo, convertendo hábitos em costumes, mas libertou nosso corpo ao mesmo tempo em que o encarcerou na duração sem tempo da rede. Boa parte de nossa desorientação temporal, associada à falta de lembranças e à falta de projectos, tem a ver com essa comunicação sem corpos que do ócio se transladou agora também ao trabalho. As aulas online, o teletrabalho, as conferências em streaming que nos colocam com um mundo virtualmente que desaparece no ar, como a imagem do Gato Que Ri, algumas vozes dispersas, alguns trapos acústicos. Essa sensação de que nossas palavras não estão ancoradas nem em um lugar e nem em uma data confere a todos os discursos uma aura fúnebre e inútil. Não se pode mudar um mundo que já não existe. O melhor que podemos fazer na rede é trocar de escova de dentes. 

Um capitalismo sem exterior, de cuja decadência tomamos consciência exactamente quando todas as rotas de fuga estão obstruídas. Primeiro, digamos, ele se apoderou do tempo e de sua fenda, o espaço; agora, através das tecnologias,  se infiltra na duração. Desorientados no tempo, confinados nas tecnologias da comunicação, somos submetidos a uma vida de hábitos, completamente animal, que não deixa recordações e não gera projectos, privada de costumes e de acontecimentos; e a única coisa que podemos fazer é deixar-nos levar na velocidade das redes. O problema é que   habituamo-nos a tudo e há muitos interesses materiais e políticos em nos manter tecnologicamente confinados para sempre; ou seja, desengajados; desinteressados do mundo. É necessário começar a entender que a produtividade está desligada da presencialidade”. O confinamento é muito anterior à pandemia. Dá muito medo: essa ruptura entre produtividade e presencialidade, que deixa o espaço fora da esfera do trabalho, entrega para sempre o tempo à duração, que transbordará — já está transbordando — o modelo de emprego para inundar toda a vida do trabalhador, inclusive a mais íntima, e consumar a substituição dos corpos por funções orgânicas.

Haverá que fazer uma revolução não para mudar a Constituição, o governo ou a economia, mas para restaurar a humanidade mais elementar: para sair de casa, compartilhar espaços, dar um beijo, construir uma memória; para voltar ao tempo. Para recuperar, em definitivo, o corpo perdido.

LOUCURA VERSUS MERCANTILIZAÇÃO

 


 

Podemos nos servir da Pirâmide de Maslow e seu significado para mostrar a contradição do momento. Esta tese sustenta que na medida em que o progresso económico satisfaz as necessidades básicas associadas à subsistência e à segurança, vão surgindo novas necessidades humanas relacionadas a valores superiores (ética, criatividade, equilíbrio), situados no espaço do reconhecimento e da auto realização. Acontece que aquele paradigma nascido em 1943, no alvorecer do Estado de Bem-Estar, confiava na utopia de um desenvolvimento contínuo que acabaria se ampliando e colocando o bem-estar ao alcance de todos, suposição que foi pelos ares nas três últimas décadas.

Na verdade o Mundo está percorrendo o caminho inverso. Boa parte do género humano, e em particular do mundo do trabalho dos países desenvolvidos, está retornando a preocupações muito mais básicas que giram em torno da segurança em seus ingressos e do medo da precariedade e a perda de retribuições estáveis.

Fica assim a linha de progresso interrompida gerando uma contradição que afecta em cheio as possibilidades de êxito das opções democráticas.

Direito ao trabalho versus direitos dos cidadãos.

A certeza para boa parte dos trabalhadores e inclusive para os colectivos crescentes de classes médias que percebem a precariedade como risco certo, o facto de que as fábricas poluem, que as empresas vendam armas e alimentem guerras distantes ou que não se cumpram os objectivos de desenvolvimento sustentável tem importância secundária, sempre vem depois de sua estabilidade no emprego, da qual depende sua própria subsistência e a dos seus.

Realidades tão distintas suscitam a pergunta: como amalgamar essas diferentes visões que surgem  tão distintas.  Recuperar a primazia da política sobre a economia, afecta uns e outros: as camadas mais preparadas e conscientes que constroem relatos de um futuro desejado a médio e longo prazo e as precarizadas que não estão em condições a não ser de sobreviver dia a dia. Sintetizar as duas visões está difícil ( dir-se-à quase impossível) originando o rompimento da dinâmica na qual convivem e se retro alimentam posturas elitistas e populistas que se solidificam nas diferentes camadas sociais e impedem o esboço de um bem comum compartilhado.

Quais bens jurídicos devem ser protegidos?

Quem está? Quando estamos e quando não? Do que estamos protegidos? O tema central é justamente dar resposta à necessidade de protecção, o que significa que precisamos ser capazes de contar com um marco específico de direitos viáveis, em que todos possam colocar sua expectativa de futuro em um horizonte de razoável certeza.

Ao sermos confrontados com os resultados deste “novo mundo” ( suas políticas económicas-sociais) ficamos verdadeiramente apreensivos: aumento colossal da concentração da riqueza e da renda, ampliação das desigualdades entre os países do centro e da periferia do sistema capitalista e no interior de cada país, crescimento do desemprego, da informalidade e da precarização do trabalho, aumento da pobreza, instabilidade e insegurança crescentes, espalhamento da economia do crime; enfim, exclusão social e uma frieza atroz das relações humanas.

Estamos a avançar vertiginosamente para a mercantilização da loucura .Não é de agora que os Governos  buscam na pseudo cientificidade psiquiátrica, apoio para suas políticas de controle social de corpos. Nem será por acaso a emergência da necropolítica.

AGRO ECOLOGIA

 

Agro ecologia é o caminho

 

Agroecologia é mais do que cultivar a terra, a questão habitacional também precisa questionar o modelo de construção civil dominante. Ela liga-se aos movimentos sociais de ocupação urbana e rural. Fortalecer modelos de construção alternativos aos impostos pelo grande capital. Além de lutar pela existência de políticas públicas de habitação, é urgente repensar, a partir da agro ecologia, outros modos de construção civil.

Construção agroecológica prima pela sustentabilidade, pela não agressão ao meio ambiente e sobretudo pelo combate cerrado e tenaz ao “construnegócio”  na construção civil”.

O construnegócio também produz suas commodities (o ferro, o alumínio, o PVC, o cobre, o cimento, a cal, a areia, a brita, o eucalipto, o pinus, o vidro, as tintas sintéticas) em escala global e regional, gerando circuitos comerciais que só acrescentam aos cofres das grandes empresas transnacionais, aprofundam o extractivismo intensivo provocando nocivas consequências para o meio ambiente e impõe relações de trabalho que reproduz a desigualdade social, completa.

Neste sentido, a construção agroecológica propõe reflectir sobre os modos de construção dos espaços sociais, apontando formas de priorizar a autogestão, a cooperação das comunidades, valorizando os materiais locais, e garantindo o cuidado no manejo com os recursos naturais. Além de recuperar os conhecimentos ancestrais adaptados à tecnologia desenvolvida para cada ecossistema.

 Terra, madeira, bambu, palha, pedra; esses são alguns materiais que podem  ser utilizados para construção de moradias agroecológicas

O projecto consiste na produção de um canteiro, escola de habitação, saneamento ecológico e energia renovável, envolvendo um colectivo de agricultores, construtores populares, arquitectos, engenheiros, sociólogos, assistentes sociais e agrónomos.

Técnicas como a do tijolo agro ecológico de BTC (Bloco de Terra Compactada)

A conexão com as questões relativas à moradia e como isso está para além da casa. É o território, a auto organização, a alimentação, todo um processo de articulação popular entendendo que habitação é muito mais que a casa.

2021-04-12

ANTROPOLINGUÍSTICULTURAL

 

                                           Desenho de Miguel Cipriano


Fase embrionária escarlate

plasma digital, ipod,  meu habitat

contorço-me, retorço-me, esforço-me

me , me, me, incansavelmente

sou fluorescente, abrangente, nada decadente.

As linhas curvas que vês

-optical   engano-

são rectas infinitas, infinitesimais

mais, mais, mais

voracidades letais.

Convenhamos  nem sempre eterno

O/Este meu vagabundear

nos neons cósmicos

concede-me brilhos inusitados.

Sustenho a respiração, entubo-me

pairo no ar, sou placa digital

antibacteriana, antiviral

quase, quase, um orgulho Universal.

AMOR? AMIZADE? ÉTICA? CHORO?PESAR?

O quêêê?

Etecetera e tal…

Sou digital

Sou digital!!!

2021-01-20

PERDIDOS NO ESPAÇO E NO TEMPO

 


Para nos orientarmos no espaço é preciso ter cruzamentos, norte, torres, sinais luminosos, montes, estrelas… Já em relação ao tempo, precisamos de costumes, manias, pandemias e acontecimentos. Visto assim, aqui deste lado (o meu lado), O Tempo é mesmo O Tempo. Os relógios, os calendários, algumas memórias juntem-lhe as datas comemorativas e as mudanças de estações servem para medi-lo. A ele ao Tempo posso chamar-lhe duração, tipo aquela massa de fazer pão peganhosa entre os dedos.

Aqui começa então a árdua tarefa: precisamos contemplar a duração do tempo   para não nos perdermos .Aquela pequenina fenda entre o tempo e a duração, como entre as conchas de um molusco, tem que estar aberta para que a vida entre. Essa pequena fenda é o que chamamos Espaço. 

A pandemia tapou as conchas do molusco. O Tempo fechou-se sobre a Duração, coincidindo com ela. O Tempo sobrepõe-se à Duração,  não cabe o espaço; logo, consequentemente, não cabem os corpos. Lembranças e projectos turvam-se ou são apagados.

 O tempo duração é, por isso, um pântano não tem bordas, não aquele rio — que vai para a morte — mas um mar espesso sem horizonte para contemplar ao longe, tampouco tem arbustos ou pedras para nos  agarrarmos. Se dissermos: “isso aconteceu amanhã”, “isso ocorrerá ontem”, “isso está acontecendo sine die” é o princípio ou o fim da loucura? Já agora, é legítimo perguntar, haverá “lux” nela? Também Lúcifer deriva de luz e é filho de Deus. 

Um minuto dura mais que um dia porque o minuto deve ser contado e o dia, ao contrário, se desconta quando já passou. Um dia dura, em qualquer caso, mais que um ano. 

“ Os minutos passam tão lentos, como o tempo passa tão rápido”. 

Se escovo os dentes diante do espelho, não posso saber quando estou fazendo isso porque o faço todos os dias. Esse acto é um hábito e uma parte de meu organismo, não de minha agenda. Não preciso me perguntar também se hoje levo um fígado dentro de mim ou as mãos no extremo dos braços, porque tenho o hábito de levá-las sempre. O acto de escovar os dentes, como o de ter mãos, se dá por certo e, consequentemente, não me serve para contar o tempo. Nem me deixa nenhuma lembrança nem sua repetição me ajuda a recordar outra coisa ao meu redor, seja por associação ou concomitância. 

Não posso saber quando estou escovando os dentes porque sempre estou escovando os dentes. Sempre estou conectado à internet. Por isso o hábito, submergido na duração, é o contrário do costume, que implica a ideia de repetição no tempo.  

Os costumes, humanos ou naturais, são repetições no tempo que nos permitem orientar-nos por meio dos movimentos que faz o passado com a memória e os movimentos que o futuro faz com a vontade.

Orientar-se no tempo significa, portanto, inscrever o corpo fora do organismo, em um espaço em que os gestos contam. Os hábitos não ocorrem no espaço. Respiro, escovo os dentes e me conecto à internet em qualquer lugar, em lugar nenhum, em uma duração intestinal sem aura nem mundo. Meu corpo só está em algum lugar quando posso relacioná-lo com outros corpos e, por isso mesmo, situá-lo em um eixo vertical do tempo. 

É preciso entender bem essa questão. Temos isso que chamamos “presente” só porque enquanto trabalhamos recordamos o que estamos fazendo; aqueles que — como em certos casos trágicos de amnésia patológica — perderam a tal ponto a memória que apagam suas experiências no mesmo acto de vivê-las, na realidade não vivem nada. Vivemos, pois, da memória e o que chamamos “presente” não é mais que nosso passado mais recente: dali, por certo, vem a sensação de desassossego, inseparável da condição humana, de que nunca estamos completamente ali, quando beijamos a nossa amada ou na felicidade de ver, pela primeira vez, as flores do Imbondeiro ou as cachoeiras da Binga.

Não estar inteiramente aqui é nossa forma de estar aqui: um beijo esquecido não é um beijo; um beijo que é só recordação — porque meus lábios, ao unir-se aos seus, já estão no passado — é o único beijo que nós, humanos, temos acesso.

Não há “presente puro”.O beijo é dado na pura duração sem tempo do organismo cego, onde a consciência não pode entrar, sequer tarde demais. Enquanto nos beijamos temos a sensação de que “acabamos de nos beijar”. 

Nunca é sincronizado. E pouco serve prestar atenção. Enquanto te beijo, para estar completamente em sua boca, ansiando pelo amor inflamado, tratando de reter esse momento intenso de intimidade, posso tentar lembrar a mim mesmo: “presta atenção: está beijando a Marta”. Mas já — aí — estou perdido: imediatamente a estar recordando. Nenhum gerúndio é presente; todos os gerúndios são um “acaba de passar”: todos os gerúndios, sim, excepto “recordando”. Nunca estou beijando Marta aqui e agora; por muitos minutos que a beijei sem tomar alento, e por mais que continue e continue beijando-a, é algo que já ocorreu enquanto ocorre: uma sucessão mais ou menos longa (oxalá seja longa) de “acaba-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”. Nunca “começamos a”; sempre “acabamos de”. 

O normal é estar sempre “acabando de”, sentimos em seguida a dor da “incompletude”: a nostalgia desse minuto que se escorreu do princípio, a insatisfação de não haver beijado Josefa o bastante. Mas essa dor é sempre melhor do que o nada do escovar os dentes. 

Vivemos no passado, mas também fazemos o futuro, colocando-nos sem descanso diante desse lugar onde vivemos recordando o presente. Isso refere-se à palavra “projecto”. Esperamos certas repetições e preparamos certos acontecimentos. Nosso corpo está em algum lugar porque vamos a alguma parte, com as pernas ou com a mente; porque avançamos pelo espaço em direcção ao futuro.

O presente ocorre no passado e antecipa um futuro do qual nos separamos não só por uma sucessão mais ou menos longa de horas a percorrer, mas por um mato, uma praça, toda a Avenida da Marginal, que é longuíssima. O presente é o passado mais recente, mas também é o primeiro obstáculo para chegar a sua casa ou para que chegue o verão. Nunca chego a sua casa e nunca chega o verão, é verdade, porque uma vez ali já passou. Mas graças a essas tensões insatisfatórias, geradas antes ou depois, nos orientamos no tempo e submergimos completamente na duração intestinal do hábito orgânico sem fronteiras. 

Nossa vida inteira é convertida em um hábito: algo que ocorre sob a atenção de nosso corpo, em seu interior biológico, sem memória nem esperança. Já não há espaço entre o limite do tempo e o limite da duração por onde possa caber até a dor de já ter te beijado, a dor de não ter te beijado ainda. Acredito que a todos nós está passando isso de nos sentirmos  temporalmente desorientados; mal sabemos quais sequelas físicas e psicológicas nos deixará. Se orientar-se no tempo é viver acções já terminadas ou ainda iniciadas, nunca “acabamos de” escovar os dentes porque escovar os dentes é uma acção que não tem princípio nem fim. Não deixa nenhuma memória tampouco contém algum plano de futuro. Não começa. Não acaba. Simplesmente não ocorre.

Os últimos nove meses têm sido, sem dúvida, os mais densos e mais curtos de nossas vidas: passou de uma só vez, em um só bloco, de repente. Uma vez terminada a pandemia, dentro de um ano ou dois, não recordaremos de nada, porque não haverá passado um ou dois anos: haverá passado só uma unidade de tempo. O confinamento tecnológico em que, de algum modo, vivíamos antes mesmo da pandemia, mas que a pandemia, impondo uma forma de necessidade funcional, completou, libertou-nos do corpo, convertendo hábitos em costumes, mas libertou nosso corpo ao mesmo tempo em que o encarcerou na duração sem tempo da rede. Boa parte de nossa desorientação temporal, associada à falta de lembranças e à falta de projectos, tem a ver com essa comunicação sem corpos que do ócio se transladou agora também ao trabalho. As aulas online, o teletrabalho, as conferências em streaming que nos colocam com um mundo virtualmente que desaparece no ar, como a imagem do Gato Que Ri, algumas vozes dispersas, alguns trapos acústicos. Essa sensação de que nossas palavras não estão ancoradas nem em um lugar e nem em uma data confere a todos os discursos uma aura fúnebre e inútil. Não se pode mudar um mundo que já não existe. O melhor que podemos fazer na rede é trocar de escova de dentes. 

Um capitalismo sem exterior, de cuja decadência tomamos consciência exactamente quando todas as rotas de fuga estão obstruídas. Primeiro, digamos, ele se apoderou do tempo e de sua fenda, o espaço; agora, através das tecnologias,  se infiltra na duração. Desorientados no tempo, confinados nas tecnologias da comunicação, somos submetidos a uma vida de hábitos, completamente animal, que não deixa recordações e não gera projectos, privada de costumes e de acontecimentos; e a única coisa que podemos fazer é deixar-nos levar na velocidade das redes. O problema é que   habituamo-nos a tudo e há muitos interesses materiais e políticos em nos manter tecnologicamente confinados para sempre; ou seja, desengajados; desinteressados do mundo. É necessário começar a entender que a produtividade está desligada da presencialidade”. O confinamento é muito anterior à pandemia. Dá muito medo: essa ruptura entre produtividade e presencialidade, que deixa o espaço fora da esfera do trabalho, entrega para sempre o tempo à duração, que transbordará — já está transbordando — o modelo de emprego para inundar toda a vida do trabalhador, inclusive a mais íntima, e consumar a substituição dos corpos por funções orgânicas.

Haverá que fazer uma revolução não para mudar a Constituição, o governo ou a economia, mas para restaurar a humanidade mais elementar: para sair de casa, compartilhar espaços, dar um beijo, construir uma memória; para voltar ao tempo. Para recuperar, em definitivo, o corpo perdido.

 

KimdaMagna