2021-05-13

CULTURA VIVA

 


As corporações controlam as redes e para fugir a este agrilhoamento, é preciso investirmos no sentir-pensar-agir, suportado pela diversidade real e vida comunitária. Assim teremos uma robusta resistência às lógicas de padronização e da globalização.

Quando os sistemas Mercado, Estado, Igrejas, e também a Educação, se entrelaçam em um só sistema, impõe-se o poder absoluto, e a CULTURA VIVA,  por contraponto à cultura da tradição e do “porque era assim” tem tendência a definhar.

A mídia monopolista não pode ser compreendida como um sistema próprio – porque depende dos demais sistemas –, mas como meio de alinhavar os outros sistemas, formatando a sociedade a partir da lógica destes.

Mesmo aquela mídia distribuída, via redes sociais, não pode ser interpretada como alternativa à mídia monopolista e vertical, porque ela sofre o controlo das lógicas próprias de poder e mercantilização dos afectos, porém mediados por algoritmos. Quando ocorre esse alinhamento e convergência a ditadura perfeita, ganha espaço em processos de totalitarismo. É o que está ocorrendo no mundo actual.

A necessidade de separarmos os poderes é tão somente para rejeição dos totalitarismos, despotismos e tiranias, cabendo regular as relações entre Estado e Mercado, Estado e Religião e Estado e Educação. Contém também o estabelecimento de um sistema de pesos e contrapesos para o sistema Estado, com separação e equilíbrio entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Se um sistema impõe sua lógica sobre os demais,  imiscuindo-se nas atribuições do outro, ou quando um sistema se deixa subordinar a outro, estabelece-se um ambiente pantanoso e corrompido, propício à promiscuidade na relação do Estado com os demais sistemas (mercado, Igrejas, educação).

Desde o final do século XX, o mundo vive um quadro de profunda instabilidade, com a globalização em uma tendência de concentração e estabelecimento do poder absoluto, como nunca antes houve na história.  Veja-se a obscena concentração de renda, em que apenas oito (exatamente, oito) pessoas possuem riqueza equivalente à da metade mais pobre da população mundial. Essa concentração de riqueza faz as regulações construídas pelo processo civilizatório, sobretudo nos últimos dois séculos, serem desfeitas, produzindo o desfazimento das fronteiras entre sistemas, em um perigoso processo de concentração de poder. Os Estados vão perdendo poder, mas não para suas populações, e sim para poderes extranacionais, incontroláveis em suas ganâncias. Com estados enfraquecidos, o mercado impõe as regras.

O contraponto a esse processo avassalador, de implantação do poder absoluto, só poderá ser encontrado no mundo da vida, está na cultura do encontro e na cultura viva, sobretudo aquela que se estrutura a partir de bases comunitárias e ancestrais, em que os valores preponderantes sejam os da própria vida. A força desses valores da vida precisa ser abastecida no solo fértil do comum. E esse solo se encontra nos ambientes comunitários e ancestrais.

. O objetivo é o mesmo – a superação de um sistema que “humilha dignidades, insulta honestidades e assassina esperanças”4 –, mas são outras formas de pensar e realizar a ideia de Revolução, em que não basta conquistar o mundo, pois é necessário fazê-lo de novo.

Em vez de humanidade nos oferecem índices das bolsas de valores, em vez de dignidade nos oferecem globalização da miséria, em vez de esperança nos oferecem o vácuo, em vez de vida nos oferecem a internacional do terror.

A unidade, acima de fronteiras, línguas, cores, culturas, sexos, estratégias e pensamentos, de todos os que preferem a humanidade viva.

A internacional da esperança. Um alento sim, um alento da dignidade. Uma flor sim, a flor da esperança. Um canto sim, o canto da vida.

KimdaMagna

2021-05-11

ANTROPOCENO

 



Os preços dos alimentos disparam. Água e comida não podem ser reféns do mercado… A água e a comida são dois bens essenciais para a vida de qualquer espécie viva da Terra. Desde os tempos bíblicos a fome assusta as diversas populações nacionais. Historicamente, a fome está sempre associada a revoltas e revoluções. Aumento da carestia é sempre um alerta.

Observemos alguns dados históricos e porque muitos tem a memória curta, segundo o FFPI (Índice de Preços de Alimentos) da FAO, houve um curto pico acima de 120 pontos na década de 1970 ( choque do petróleo) tendo baixado entre 1985 e 2005. No século XXI a perspectiva é de alta. Embora os preços dos alimentos tenham caído no início da pandemia a partir de Maio de 2020 voltou a subir e o preocupante é que os preços voltaram para o patamar de 120 pontos.

A fome é uma constante na história humana e seria ilusão imaginar que o mundo estaria livre desta ameaça. O maior volume absoluto de óbitos provocados pela desnutrição aconteceu na década de 1870, quando 20,4 milhões de pessoas morreram por inanição no mundo.

Na década de 1880 o número de vítimas caiu para menos de 3 milhões, mas voltou a subir para quase 10 milhões na década de 1890. Surpreendentemente, o número de óbitos por fome diminuiu na década de 1910 – quando houve a Primeira Guerra Mundial – mesmo sendo o número de 2,6 milhões ainda muito elevado. Na década de 1920 a fome cresceu muito novamente, atingindo 16 milhões de vítimas fatais devido, principalmente, à situação da União Soviética e da China. Na década de 1940 – quando aconteceu a Segunda Guerra Mundial – a fome bateu todos os recordes do século XX, com 18,6 milhões de vítimas. Na década de 1960 a fome voltou a assustar, mas principalmente pela grande crise provocada pelos equívocos da política de “Um grande salto para frente” da China, mas o número de vítimas da insegurança alimentar diminuiu muito no mundo nas décadas seguintes, sendo que o número de mortes atingiu o menor nível na década passada (2011-20).

Assim e posto esta pequena incursão no histórico da fome, constatamos que as conquistas do último século podem não durar para sempre. O pandemónio económico provocado pela covid-19 tem desarticulado a cadeia de produção de vários produtos e tem gerado aumento do preço global da comida, devido a 5 factores: aumento dos custos de produção e transporte; desorganização da cadeia produtiva global (gerando gargalos na produção e distribuição); aumento do preço do petróleo; danos causados pela crise ambiental; e desvalorização cambial.

É um facto que é cada vez mais difícil produzir alimentos de forma sustentável e o relatório “Climate Change anda Land” sobre  Mudanças Climáticas (ONU 08/08/2019), mostra-nos  que na conexão entre o uso da terra e seu efeitos sobre a mudança climática há um efeito perverso de retroalimentação entre as duas coisas, pois a produção de alimentos aumenta o aquecimento global, enquanto as mudanças climáticas decorrentes ameaçam a produção de alimentos. Bem estamos aqui perante uma problemática que de maneira nenhuma poderá ser resolvida por “curiosos”, pseudo cientistas , “camaradas”, kimbandas ou  pastores das igrejas. O devir EXIGE pessoas com real e profundo conhecimentos das “malambas da vida”.

O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mostra, de forma inquestionável, que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura actualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce. Cerca de 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e 80% do desmatamento global só por conta do sistema alimentar.

O sistema alimentar mundial actual pode alimentar apenas 3,4 bilhões de pessoas sem transgredir os principais limites planetários, de acordo com uma análise do sistema agrícola global. Todavia, a reorganização da produção de alimentos – alterando a forma de cultivar e modificando a dieta quotidiana predominante – possibilitaria alimentar até 10 bilhões de pessoas de forma sustentável segundo o Trabalho Académico publicado na prestigiosa revista Nature Sustainability (Gerten et. al, 2020).

 Não devemos continuar a produzir mais alimentos à custa do meio ambiente para isso existem quatro pontos importantes para a agricultura: não usar muito nitrogénio, o que causa zonas mortas em lagos e oceanos; não tirar muita água doce dos rios; não derrubar muita floresta; e manutenção da biodiversidade. Mas metade da produção de alimentos hoje viola esses limites. No entanto, essa análise também é a primeira a fornecer informações sobre onde, geograficamente, esses limites estão sendo transgredidos.

 

Olhando para o período de Março a Julho de 2021, há 20 países e situações onde há uma probabilidade de maior deterioração da insegurança alimentar aguda, devido a múltiplas causas da fome que estão interligados ou se reforçam mutuamente, estes são principalmente conflitos dinâmicos, choques económicos, impactos socioeconómicos da COVID19, extremos climáticos e a difusão de pragas vegetais e doenças em animais. É claro que Àfrica está dentro destas perspectivas; direi em linguagem vernácula África está sempre a levar no “mataco” Um grupo específico de pontos críticos – destacados na figura em anexo, são particularmente preocupantes devido à escala, gravidade e tendências das crises alimentares existentes. Em algumas  áreas desses países, partes da população estão experimentando uma situação crítica de fome, com esgotamento extremo dos meios de subsistência, consumo insuficiente de alimentos e desnutrição aguda elevada.

Em relação a Angola é um facto que o custo da cesta básica disparou e está bem acima da inflacção, enquanto OS SALÁRIOS “estacionaram”.

Em conclusão diremos que havia duas ideias veiculadas pelos demógrafos, uma dizendo que o preço dos alimentos iria diminuir a outra que ele iria aumentar No dia 09/04/2021 a IUSSP (International Union for the Scientific Study of Population) e a PAA organizaram o “Webinar on Population, Food and the Environment” onde ficou claro que o preço dos alimentos continua alto e subindo.

 O Povo Angolano está com fome de comida e fome de justiça.

Gerten, D., Heck, V., Jägermeyr, J. et al. Feeding ten billion people is possible within four terrestrial planetary boundaries. Nat Sustain (2020) doi:10.1038/s41893-019-0465-1
https://www.nature.com/articles/s41893-019-0465-1#citeas

IPCC. Climate Change and Land. An IPCC Special Report  on climate change, desertification, land degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems, 08/08/2019
https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

IUSSP/PAA Webinar on Population, Food and the Environment, 09/04/2021
https://www.youtube.com/watch?v=5Bj-kUttadQ

SEQUESTRO DA AMIGDLA


A amígdala fica na base do cérebro e canaliza sinais emocionais fortes que podem neutralizar o córtex pré-frontal, impedindo-nos de tomar decisões racionais. Ameaçados ou irados, origina-nos uma resposta de luta ou fuga, impedindo a capacidade de raciocinar. Ao atacamos irracionalmente, dizendo coisas estúpidas  desencadeamos o sequestro de amígdala em outras pessoas. É mais ou menos assim que as redes sociais funcionam.

Estaremos mergulhando, em todo o mundo, num ciclo letal de fúria e reactivismo, que bloqueia a conversa fundamentada da qual depende a vida cidadã?

Oportunistas políticos que usam agressão, mentiras e indignação para abafar os argumentos sempre existiram. A raiva e os desentendimentos que as redes sociais geram, exacerbados por fábricas de insultos, robôs e publicidade política secretamente influenciada transbordam para a vida real.

Era impensável poucos anos atrás ,os políticos e comentaristas usarem a violência verbal.

Alguma neurociência acompanhada pela psicologia sugerem que, na vida pública, as ameaças e o stress tendem a  auto perpetuar-se. Quanto mais ameaçados nos sentimos, mais nossas mentes são dominadas por reflexos involuntários e reacções impensadas.

Suspeito que os demagogos – ou seus conselheiros – saibam o que estão fazendo. Instintiva ou explicitamente, eles compreendem que reagimos irracionalmente a ameaças, e sabem que para vencer precisam nos fazer parar de pensar.

Será então por isso que o nosso querido e amado desgoverno Angolano está a “muscular” o discurso? O plano Covidiano?

Romper a espiral significa restaurar o estado mental que nos permite pensar.

Os eleitores irão agora acordar desse pesadelo, demitir aqueles que fabricaram as crises e restaurar a política pacífica e fundamentada da qual depende nossa segurança? Infelizmente, não parece tão fácil assim.


PERDIDOS NO ESPAÇO E NO TEMPO

 


 

Para nos orientarmos no espaço é preciso ter cruzamentos, norte, torres, sinais luminosos, montes, estrelas… Já em relação ao tempo, precisamos de costumes, manias, pandemias e acontecimentos. Visto assim, aqui deste lado (o meu lado), O Tempo é mesmo O Tempo. Os relógios, os calendários, algumas memórias juntem-lhe as datas comemorativas e as mudanças de estações servem para medi-lo. A ele ao Tempo posso chamar-lhe duração, tipo aquela massa de fazer pão peganhosa entre os dedos.

Aqui começa então a árdua tarefa: precisamos contemplar a duração do tempo   para não nos perdermos .Aquela pequenina fenda entre o tempo e a duração, como entre as conchas de um molusco, tem que estar aberta para que a vida entre. Essa pequena fenda é o que chamamos Espaço. 

A pandemia tapou as conchas do molusco. O Tempo fechou-se sobre a Duração, coincidindo com ela. O Tempo sobrepõe-se à Duração,  não cabe o espaço; logo, consequentemente, não cabem os corpos. Lembranças e projectos turvam-se ou são apagados.

 O tempo duração é, por isso, um pântano não tem bordas, não aquele rio — que vai para a morte — mas um mar espesso sem horizonte para contemplar ao longe, tampouco tem arbustos ou pedras para nos  agarrarmos. Se dissermos: “isso aconteceu amanhã”, “isso ocorrerá ontem”, “isso está acontecendo sine die” é o princípio ou o fim da loucura? Já agora, é legítimo perguntar, haverá “lux” nela? Também Lúcifer deriva de luz e é filho de Deus. 

Um minuto dura mais que um dia porque o minuto deve ser contado e o dia, ao contrário, se desconta quando já passou. Um dia dura, em qualquer caso, mais que um ano. 

“ Os minutos passam tão lentos, como o tempo passa tão rápido”. 

Se escovo os dentes diante do espelho, não posso saber quando estou fazendo isso porque o faço todos os dias. Esse acto é um hábito e uma parte de meu organismo, não de minha agenda. Não preciso me perguntar também se hoje levo um fígado dentro de mim ou as mãos no extremo dos braços, porque tenho o hábito de levá-las sempre. O acto de escovar os dentes, como o de ter mãos, se dá por certo e, consequentemente, não me serve para contar o tempo. Nem me deixa nenhuma lembrança nem sua repetição me ajuda a recordar outra coisa ao meu redor, seja por associação ou concomitância. 

Não posso saber quando estou escovando os dentes porque sempre estou escovando os dentes. Sempre estou conectado à internet. Por isso o hábito, submergido na duração, é o contrário do costume, que implica a ideia de repetição no tempo.  

Os costumes, humanos ou naturais, são repetições no tempo que nos permitem orientar-nos por meio dos movimentos que faz o passado com a memória e os movimentos que o futuro faz com a vontade.

Orientar-se no tempo significa, portanto, inscrever o corpo fora do organismo, em um espaço em que os gestos contam. Os hábitos não ocorrem no espaço. Respiro, escovo os dentes e me conecto à internet em qualquer lugar, em lugar nenhum, em uma duração intestinal sem aura nem mundo. Meu corpo só está em algum lugar quando posso relacioná-lo com outros corpos e, por isso mesmo, situá-lo em um eixo vertical do tempo. 

É preciso entender bem essa questão. Temos isso que chamamos “presente” só porque enquanto trabalhamos recordamos o que estamos fazendo; aqueles que — como em certos casos trágicos de amnésia patológica — perderam a tal ponto a memória que apagam suas experiências no mesmo acto de vivê-las, na realidade não vivem nada. Vivemos, pois, da memória e o que chamamos “presente” não é mais que nosso passado mais recente: dali, por certo, vem a sensação de desassossego, inseparável da condição humana, de que nunca estamos completamente ali, quando beijamos a nossa amada ou na felicidade de ver, pela primeira vez, as flores do Imbondeiro ou as cachoeiras da Binga.

Não estar inteiramente aqui é nossa forma de estar aqui: um beijo esquecido não é um beijo; um beijo que é só recordação — porque meus lábios, ao unir-se aos seus, já estão no passado — é o único beijo que nós, humanos, temos acesso.

Não há “presente puro”.O beijo é dado na pura duração sem tempo do organismo cego, onde a consciência não pode entrar, sequer tarde demais. Enquanto nos beijamos temos a sensação de que “acabamos de nos beijar”. 

Nunca é sincronizado. E pouco serve prestar atenção. Enquanto te beijo, para estar completamente em sua boca, ansiando pelo amor inflamado, tratando de reter esse momento intenso de intimidade, posso tentar lembrar a mim mesmo: “presta atenção: está beijando a Marta”. Mas já — aí — estou perdido: imediatamente a estar recordando. Nenhum gerúndio é presente; todos os gerúndios são um “acaba de passar”: todos os gerúndios, sim, excepto “recordando”. Nunca estou beijando Marta aqui e agora; por muitos minutos que a beijei sem tomar alento, e por mais que continue e continue beijando-a, é algo que já ocorreu enquanto ocorre: uma sucessão mais ou menos longa (oxalá seja longa) de “acaba-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”. Nunca “começamos a”; sempre “acabamos de”. 

O normal é estar sempre “acabando de”, sentimos em seguida a dor da “incompletude”: a nostalgia desse minuto que se escorreu do princípio, a insatisfação de não haver beijado Josefa o bastante. Mas essa dor é sempre melhor do que o nada do escovar os dentes. 

Vivemos no passado, mas também fazemos o futuro, colocando-nos sem descanso diante desse lugar onde vivemos recordando o presente. Isso refere-se à palavra “projecto”. Esperamos certas repetições e preparamos certos acontecimentos. Nosso corpo está em algum lugar porque vamos a alguma parte, com as pernas ou com a mente; porque avançamos pelo espaço em direcção ao futuro.

O presente ocorre no passado e antecipa um futuro do qual nos separamos não só por uma sucessão mais ou menos longa de horas a percorrer, mas por um mato, uma praça, toda a Avenida da Marginal, que é longuíssima. O presente é o passado mais recente, mas também é o primeiro obstáculo para chegar a sua casa ou para que chegue o verão. Nunca chego a sua casa e nunca chega o verão, é verdade, porque uma vez ali já passou. Mas graças a essas tensões insatisfatórias, geradas antes ou depois, nos orientamos no tempo e submergimos completamente na duração intestinal do hábito orgânico sem fronteiras. 

Nossa vida inteira é convertida em um hábito: algo que ocorre sob a atenção de nosso corpo, em seu interior biológico, sem memória nem esperança. Já não há espaço entre o limite do tempo e o limite da duração por onde possa caber até a dor de já ter te beijado, a dor de não ter te beijado ainda. Acredito que a todos nós está passando isso de nos sentirmos  temporalmente desorientados; mal sabemos quais sequelas físicas e psicológicas nos deixará. Se orientar-se no tempo é viver acções já terminadas ou ainda iniciadas, nunca “acabamos de” escovar os dentes porque escovar os dentes é uma acção que não tem princípio nem fim. Não deixa nenhuma memória tampouco contém algum plano de futuro. Não começa. Não acaba. Simplesmente não ocorre.

Os últimos nove meses têm sido, sem dúvida, os mais densos e mais curtos de nossas vidas: passou de uma só vez, em um só bloco, de repente. Uma vez terminada a pandemia, dentro de um ano ou dois, não recordaremos de nada, porque não haverá passado um ou dois anos: haverá passado só uma unidade de tempo. O confinamento tecnológico em que, de algum modo, vivíamos antes mesmo da pandemia, mas que a pandemia, impondo uma forma de necessidade funcional, completou, libertou-nos do corpo, convertendo hábitos em costumes, mas libertou nosso corpo ao mesmo tempo em que o encarcerou na duração sem tempo da rede. Boa parte de nossa desorientação temporal, associada à falta de lembranças e à falta de projectos, tem a ver com essa comunicação sem corpos que do ócio se transladou agora também ao trabalho. As aulas online, o teletrabalho, as conferências em streaming que nos colocam com um mundo virtualmente que desaparece no ar, como a imagem do Gato Que Ri, algumas vozes dispersas, alguns trapos acústicos. Essa sensação de que nossas palavras não estão ancoradas nem em um lugar e nem em uma data confere a todos os discursos uma aura fúnebre e inútil. Não se pode mudar um mundo que já não existe. O melhor que podemos fazer na rede é trocar de escova de dentes. 

Um capitalismo sem exterior, de cuja decadência tomamos consciência exactamente quando todas as rotas de fuga estão obstruídas. Primeiro, digamos, ele se apoderou do tempo e de sua fenda, o espaço; agora, através das tecnologias,  se infiltra na duração. Desorientados no tempo, confinados nas tecnologias da comunicação, somos submetidos a uma vida de hábitos, completamente animal, que não deixa recordações e não gera projectos, privada de costumes e de acontecimentos; e a única coisa que podemos fazer é deixar-nos levar na velocidade das redes. O problema é que   habituamo-nos a tudo e há muitos interesses materiais e políticos em nos manter tecnologicamente confinados para sempre; ou seja, desengajados; desinteressados do mundo. É necessário começar a entender que a produtividade está desligada da presencialidade”. O confinamento é muito anterior à pandemia. Dá muito medo: essa ruptura entre produtividade e presencialidade, que deixa o espaço fora da esfera do trabalho, entrega para sempre o tempo à duração, que transbordará — já está transbordando — o modelo de emprego para inundar toda a vida do trabalhador, inclusive a mais íntima, e consumar a substituição dos corpos por funções orgânicas.

Haverá que fazer uma revolução não para mudar a Constituição, o governo ou a economia, mas para restaurar a humanidade mais elementar: para sair de casa, compartilhar espaços, dar um beijo, construir uma memória; para voltar ao tempo. Para recuperar, em definitivo, o corpo perdido.

LOUCURA VERSUS MERCANTILIZAÇÃO

 


 

Podemos nos servir da Pirâmide de Maslow e seu significado para mostrar a contradição do momento. Esta tese sustenta que na medida em que o progresso económico satisfaz as necessidades básicas associadas à subsistência e à segurança, vão surgindo novas necessidades humanas relacionadas a valores superiores (ética, criatividade, equilíbrio), situados no espaço do reconhecimento e da auto realização. Acontece que aquele paradigma nascido em 1943, no alvorecer do Estado de Bem-Estar, confiava na utopia de um desenvolvimento contínuo que acabaria se ampliando e colocando o bem-estar ao alcance de todos, suposição que foi pelos ares nas três últimas décadas.

Na verdade o Mundo está percorrendo o caminho inverso. Boa parte do género humano, e em particular do mundo do trabalho dos países desenvolvidos, está retornando a preocupações muito mais básicas que giram em torno da segurança em seus ingressos e do medo da precariedade e a perda de retribuições estáveis.

Fica assim a linha de progresso interrompida gerando uma contradição que afecta em cheio as possibilidades de êxito das opções democráticas.

Direito ao trabalho versus direitos dos cidadãos.

A certeza para boa parte dos trabalhadores e inclusive para os colectivos crescentes de classes médias que percebem a precariedade como risco certo, o facto de que as fábricas poluem, que as empresas vendam armas e alimentem guerras distantes ou que não se cumpram os objectivos de desenvolvimento sustentável tem importância secundária, sempre vem depois de sua estabilidade no emprego, da qual depende sua própria subsistência e a dos seus.

Realidades tão distintas suscitam a pergunta: como amalgamar essas diferentes visões que surgem  tão distintas.  Recuperar a primazia da política sobre a economia, afecta uns e outros: as camadas mais preparadas e conscientes que constroem relatos de um futuro desejado a médio e longo prazo e as precarizadas que não estão em condições a não ser de sobreviver dia a dia. Sintetizar as duas visões está difícil ( dir-se-à quase impossível) originando o rompimento da dinâmica na qual convivem e se retro alimentam posturas elitistas e populistas que se solidificam nas diferentes camadas sociais e impedem o esboço de um bem comum compartilhado.

Quais bens jurídicos devem ser protegidos?

Quem está? Quando estamos e quando não? Do que estamos protegidos? O tema central é justamente dar resposta à necessidade de protecção, o que significa que precisamos ser capazes de contar com um marco específico de direitos viáveis, em que todos possam colocar sua expectativa de futuro em um horizonte de razoável certeza.

Ao sermos confrontados com os resultados deste “novo mundo” ( suas políticas económicas-sociais) ficamos verdadeiramente apreensivos: aumento colossal da concentração da riqueza e da renda, ampliação das desigualdades entre os países do centro e da periferia do sistema capitalista e no interior de cada país, crescimento do desemprego, da informalidade e da precarização do trabalho, aumento da pobreza, instabilidade e insegurança crescentes, espalhamento da economia do crime; enfim, exclusão social e uma frieza atroz das relações humanas.

Estamos a avançar vertiginosamente para a mercantilização da loucura .Não é de agora que os Governos  buscam na pseudo cientificidade psiquiátrica, apoio para suas políticas de controle social de corpos. Nem será por acaso a emergência da necropolítica.

AGRO ECOLOGIA

 

Agro ecologia é o caminho

 

Agroecologia é mais do que cultivar a terra, a questão habitacional também precisa questionar o modelo de construção civil dominante. Ela liga-se aos movimentos sociais de ocupação urbana e rural. Fortalecer modelos de construção alternativos aos impostos pelo grande capital. Além de lutar pela existência de políticas públicas de habitação, é urgente repensar, a partir da agro ecologia, outros modos de construção civil.

Construção agroecológica prima pela sustentabilidade, pela não agressão ao meio ambiente e sobretudo pelo combate cerrado e tenaz ao “construnegócio”  na construção civil”.

O construnegócio também produz suas commodities (o ferro, o alumínio, o PVC, o cobre, o cimento, a cal, a areia, a brita, o eucalipto, o pinus, o vidro, as tintas sintéticas) em escala global e regional, gerando circuitos comerciais que só acrescentam aos cofres das grandes empresas transnacionais, aprofundam o extractivismo intensivo provocando nocivas consequências para o meio ambiente e impõe relações de trabalho que reproduz a desigualdade social, completa.

Neste sentido, a construção agroecológica propõe reflectir sobre os modos de construção dos espaços sociais, apontando formas de priorizar a autogestão, a cooperação das comunidades, valorizando os materiais locais, e garantindo o cuidado no manejo com os recursos naturais. Além de recuperar os conhecimentos ancestrais adaptados à tecnologia desenvolvida para cada ecossistema.

 Terra, madeira, bambu, palha, pedra; esses são alguns materiais que podem  ser utilizados para construção de moradias agroecológicas

O projecto consiste na produção de um canteiro, escola de habitação, saneamento ecológico e energia renovável, envolvendo um colectivo de agricultores, construtores populares, arquitectos, engenheiros, sociólogos, assistentes sociais e agrónomos.

Técnicas como a do tijolo agro ecológico de BTC (Bloco de Terra Compactada)

A conexão com as questões relativas à moradia e como isso está para além da casa. É o território, a auto organização, a alimentação, todo um processo de articulação popular entendendo que habitação é muito mais que a casa.

2021-04-12

ANTROPOLINGUÍSTICULTURAL

 

                                           Desenho de Miguel Cipriano


Fase embrionária escarlate

plasma digital, ipod,  meu habitat

contorço-me, retorço-me, esforço-me

me , me, me, incansavelmente

sou fluorescente, abrangente, nada decadente.

As linhas curvas que vês

-optical   engano-

são rectas infinitas, infinitesimais

mais, mais, mais

voracidades letais.

Convenhamos  nem sempre eterno

O/Este meu vagabundear

nos neons cósmicos

concede-me brilhos inusitados.

Sustenho a respiração, entubo-me

pairo no ar, sou placa digital

antibacteriana, antiviral

quase, quase, um orgulho Universal.

AMOR? AMIZADE? ÉTICA? CHORO?PESAR?

O quêêê?

Etecetera e tal…

Sou digital

Sou digital!!!

2021-01-20

PERDIDOS NO ESPAÇO E NO TEMPO

 


Para nos orientarmos no espaço é preciso ter cruzamentos, norte, torres, sinais luminosos, montes, estrelas… Já em relação ao tempo, precisamos de costumes, manias, pandemias e acontecimentos. Visto assim, aqui deste lado (o meu lado), O Tempo é mesmo O Tempo. Os relógios, os calendários, algumas memórias juntem-lhe as datas comemorativas e as mudanças de estações servem para medi-lo. A ele ao Tempo posso chamar-lhe duração, tipo aquela massa de fazer pão peganhosa entre os dedos.

Aqui começa então a árdua tarefa: precisamos contemplar a duração do tempo   para não nos perdermos .Aquela pequenina fenda entre o tempo e a duração, como entre as conchas de um molusco, tem que estar aberta para que a vida entre. Essa pequena fenda é o que chamamos Espaço. 

A pandemia tapou as conchas do molusco. O Tempo fechou-se sobre a Duração, coincidindo com ela. O Tempo sobrepõe-se à Duração,  não cabe o espaço; logo, consequentemente, não cabem os corpos. Lembranças e projectos turvam-se ou são apagados.

 O tempo duração é, por isso, um pântano não tem bordas, não aquele rio — que vai para a morte — mas um mar espesso sem horizonte para contemplar ao longe, tampouco tem arbustos ou pedras para nos  agarrarmos. Se dissermos: “isso aconteceu amanhã”, “isso ocorrerá ontem”, “isso está acontecendo sine die” é o princípio ou o fim da loucura? Já agora, é legítimo perguntar, haverá “lux” nela? Também Lúcifer deriva de luz e é filho de Deus. 

Um minuto dura mais que um dia porque o minuto deve ser contado e o dia, ao contrário, se desconta quando já passou. Um dia dura, em qualquer caso, mais que um ano. 

“ Os minutos passam tão lentos, como o tempo passa tão rápido”. 

Se escovo os dentes diante do espelho, não posso saber quando estou fazendo isso porque o faço todos os dias. Esse acto é um hábito e uma parte de meu organismo, não de minha agenda. Não preciso me perguntar também se hoje levo um fígado dentro de mim ou as mãos no extremo dos braços, porque tenho o hábito de levá-las sempre. O acto de escovar os dentes, como o de ter mãos, se dá por certo e, consequentemente, não me serve para contar o tempo. Nem me deixa nenhuma lembrança nem sua repetição me ajuda a recordar outra coisa ao meu redor, seja por associação ou concomitância. 

Não posso saber quando estou escovando os dentes porque sempre estou escovando os dentes. Sempre estou conectado à internet. Por isso o hábito, submergido na duração, é o contrário do costume, que implica a ideia de repetição no tempo.  

Os costumes, humanos ou naturais, são repetições no tempo que nos permitem orientar-nos por meio dos movimentos que faz o passado com a memória e os movimentos que o futuro faz com a vontade.

Orientar-se no tempo significa, portanto, inscrever o corpo fora do organismo, em um espaço em que os gestos contam. Os hábitos não ocorrem no espaço. Respiro, escovo os dentes e me conecto à internet em qualquer lugar, em lugar nenhum, em uma duração intestinal sem aura nem mundo. Meu corpo só está em algum lugar quando posso relacioná-lo com outros corpos e, por isso mesmo, situá-lo em um eixo vertical do tempo. 

É preciso entender bem essa questão. Temos isso que chamamos “presente” só porque enquanto trabalhamos recordamos o que estamos fazendo; aqueles que — como em certos casos trágicos de amnésia patológica — perderam a tal ponto a memória que apagam suas experiências no mesmo acto de vivê-las, na realidade não vivem nada. Vivemos, pois, da memória e o que chamamos “presente” não é mais que nosso passado mais recente: dali, por certo, vem a sensação de desassossego, inseparável da condição humana, de que nunca estamos completamente ali, quando beijamos a nossa amada ou na felicidade de ver, pela primeira vez, as flores do Imbondeiro ou as cachoeiras da Binga.

Não estar inteiramente aqui é nossa forma de estar aqui: um beijo esquecido não é um beijo; um beijo que é só recordação — porque meus lábios, ao unir-se aos seus, já estão no passado — é o único beijo que nós, humanos, temos acesso.

Não há “presente puro”.O beijo é dado na pura duração sem tempo do organismo cego, onde a consciência não pode entrar, sequer tarde demais. Enquanto nos beijamos temos a sensação de que “acabamos de nos beijar”. 

Nunca é sincronizado. E pouco serve prestar atenção. Enquanto te beijo, para estar completamente em sua boca, ansiando pelo amor inflamado, tratando de reter esse momento intenso de intimidade, posso tentar lembrar a mim mesmo: “presta atenção: está beijando a Marta”. Mas já — aí — estou perdido: imediatamente a estar recordando. Nenhum gerúndio é presente; todos os gerúndios são um “acaba de passar”: todos os gerúndios, sim, excepto “recordando”. Nunca estou beijando Marta aqui e agora; por muitos minutos que a beijei sem tomar alento, e por mais que continue e continue beijando-a, é algo que já ocorreu enquanto ocorre: uma sucessão mais ou menos longa (oxalá seja longa) de “acaba-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”, “acabo-de-beijar-a-Marta”. Nunca “começamos a”; sempre “acabamos de”. 

O normal é estar sempre “acabando de”, sentimos em seguida a dor da “incompletude”: a nostalgia desse minuto que se escorreu do princípio, a insatisfação de não haver beijado Josefa o bastante. Mas essa dor é sempre melhor do que o nada do escovar os dentes. 

Vivemos no passado, mas também fazemos o futuro, colocando-nos sem descanso diante desse lugar onde vivemos recordando o presente. Isso refere-se à palavra “projecto”. Esperamos certas repetições e preparamos certos acontecimentos. Nosso corpo está em algum lugar porque vamos a alguma parte, com as pernas ou com a mente; porque avançamos pelo espaço em direcção ao futuro.

O presente ocorre no passado e antecipa um futuro do qual nos separamos não só por uma sucessão mais ou menos longa de horas a percorrer, mas por um mato, uma praça, toda a Avenida da Marginal, que é longuíssima. O presente é o passado mais recente, mas também é o primeiro obstáculo para chegar a sua casa ou para que chegue o verão. Nunca chego a sua casa e nunca chega o verão, é verdade, porque uma vez ali já passou. Mas graças a essas tensões insatisfatórias, geradas antes ou depois, nos orientamos no tempo e submergimos completamente na duração intestinal do hábito orgânico sem fronteiras. 

Nossa vida inteira é convertida em um hábito: algo que ocorre sob a atenção de nosso corpo, em seu interior biológico, sem memória nem esperança. Já não há espaço entre o limite do tempo e o limite da duração por onde possa caber até a dor de já ter te beijado, a dor de não ter te beijado ainda. Acredito que a todos nós está passando isso de nos sentirmos  temporalmente desorientados; mal sabemos quais sequelas físicas e psicológicas nos deixará. Se orientar-se no tempo é viver acções já terminadas ou ainda iniciadas, nunca “acabamos de” escovar os dentes porque escovar os dentes é uma acção que não tem princípio nem fim. Não deixa nenhuma memória tampouco contém algum plano de futuro. Não começa. Não acaba. Simplesmente não ocorre.

Os últimos nove meses têm sido, sem dúvida, os mais densos e mais curtos de nossas vidas: passou de uma só vez, em um só bloco, de repente. Uma vez terminada a pandemia, dentro de um ano ou dois, não recordaremos de nada, porque não haverá passado um ou dois anos: haverá passado só uma unidade de tempo. O confinamento tecnológico em que, de algum modo, vivíamos antes mesmo da pandemia, mas que a pandemia, impondo uma forma de necessidade funcional, completou, libertou-nos do corpo, convertendo hábitos em costumes, mas libertou nosso corpo ao mesmo tempo em que o encarcerou na duração sem tempo da rede. Boa parte de nossa desorientação temporal, associada à falta de lembranças e à falta de projectos, tem a ver com essa comunicação sem corpos que do ócio se transladou agora também ao trabalho. As aulas online, o teletrabalho, as conferências em streaming que nos colocam com um mundo virtualmente que desaparece no ar, como a imagem do Gato Que Ri, algumas vozes dispersas, alguns trapos acústicos. Essa sensação de que nossas palavras não estão ancoradas nem em um lugar e nem em uma data confere a todos os discursos uma aura fúnebre e inútil. Não se pode mudar um mundo que já não existe. O melhor que podemos fazer na rede é trocar de escova de dentes. 

Um capitalismo sem exterior, de cuja decadência tomamos consciência exactamente quando todas as rotas de fuga estão obstruídas. Primeiro, digamos, ele se apoderou do tempo e de sua fenda, o espaço; agora, através das tecnologias,  se infiltra na duração. Desorientados no tempo, confinados nas tecnologias da comunicação, somos submetidos a uma vida de hábitos, completamente animal, que não deixa recordações e não gera projectos, privada de costumes e de acontecimentos; e a única coisa que podemos fazer é deixar-nos levar na velocidade das redes. O problema é que   habituamo-nos a tudo e há muitos interesses materiais e políticos em nos manter tecnologicamente confinados para sempre; ou seja, desengajados; desinteressados do mundo. É necessário começar a entender que a produtividade está desligada da presencialidade”. O confinamento é muito anterior à pandemia. Dá muito medo: essa ruptura entre produtividade e presencialidade, que deixa o espaço fora da esfera do trabalho, entrega para sempre o tempo à duração, que transbordará — já está transbordando — o modelo de emprego para inundar toda a vida do trabalhador, inclusive a mais íntima, e consumar a substituição dos corpos por funções orgânicas.

Haverá que fazer uma revolução não para mudar a Constituição, o governo ou a economia, mas para restaurar a humanidade mais elementar: para sair de casa, compartilhar espaços, dar um beijo, construir uma memória; para voltar ao tempo. Para recuperar, em definitivo, o corpo perdido.

 

KimdaMagna

2020-11-25

OS DILEMAS DA ENCRUZILHADA CIVILIZATÓRIA

 


0.Introdução

Os grandes dilemas da encruzilhada civilizatória marcam a contemporaneidade. O futuro (outrora a aposta segura para o investimento de esperanças) tem cada vez mais sabor de perigos indescritíveis (e recônditos!). Então, a esperança, enlutada, e desprovida de futuro, procura abrigo num passado outrora ridicularizado e condenado, morada de equívocos e superstições.

O fenómeno da ‘fadiga da imaginação’, a exaustão de opções, emerge. A aproximação do fim dos tempos pode ser ilógica, mas por certo não é inesperada.”

Nas últimas décadas esta crise civilizatória vem-se arrastando e ampliando, em grande medida associada a dois principais factores: fenómeno crescente do declínio dos regimes democráticos, consequência do projecto de supremacia capitalista, projectada na doutrina neoliberal instalada a partir dos anos 1970, fazendo desaparecer as fronteiras e ideologias e o segundo bem mais destrutivo, está relacionado com mudanças climáticas decorrentes da acção antrópica, ou seja a relação extractivista e predatória do capital com a natureza.

Nessa perspectiva, somos um organismo patogénico, pois não há como manter 7,8 bilhões de seres humanos (estimativa actual, segundo a ONU) sem que haja uma devastação dos ecossistemas da Terra.

A partir da primeira metade do século XIX, quando a Revolução Industrial estava se consolidando na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, desencadeou-se um salto populacional exponencial que multiplicou por oito o número de pessoas no planeta,

Só nos últimos quarenta e cinco anos, o número de seres humanos dobrou em relação a todo o período de evolução do Homo sapiens, estimado em torno de 350 mil anos. Passamos de 4,06 bilhões em 1975 para 7,8 bilhões, agora, em 2020.

Os humanos e os animais criados por eles ocupam hoje 97% da área global considerada área ecúmena (área habitável), restando apenas 3% para os animais silvestres. Segundo o Relatório Planeta Vivo (2020), divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), entre 1970 e 2016, as populações desses vertebrados silvestres sofreram uma redução de 68%, o que evidencia que estamos a caminho de uma nova extinção em massa da vida na Terra.

 

1.Os grandes dilemas

Nas quatro últimas décadas, o sistema Terra vem sofrendo uma fenomenal carga de destruição que nós não sabemos como ele irá se readaptar, para além das catástrofes ambientais que já estamos assistindo. O escritor Reg Morrison, especialista em assuntos ambientais e evolutivos, em um dos seus livros, prefaciado pela reconhecida bióloga Lynn Margulis, ele projecta que “a curva descendente deve espelhar a curva de crescimento da população” e, desse modo, prevê que, assim como tivemos um pico de crescimento populacional em apenas 45 anos, “o grosso do colapso não levará mais que cem anos, e, por volta de 2150, a biosfera deverá ter voltado, com segurança, à sua população de Homo sapiens pré-praga – algo entre meio e um bilhão”, equivalente ao período em que o capitalismo ainda estava nos seus primórdios.  

Brevemente faremos a passagem do antropoceno para o necroceno, como sugere Morrison. O activista político estadunidense Noam Chomsky, reforça que “estamos em uma confluência surpreendente de crises muito graves” que podem nos levar à extinção.

 

2.A Necropolítica

Dentro de todo esse quadro distópico e incognoscível, a necropolítica parece constituir a mais nova e sofisticada forma estatal de reprodução capitalista, como tão bem identificou o filósofo camaronês Achille Mbembe.

Fazer viver e deixar morrer – ou definir quem vai sobreviver ou quem vai morrer – faz parte de um conjunto de políticas de controle social através da morte: a chamada necropolítica, como define  Achille Mbembe.

Rosa Luxemburgo filósofa e economista polaco-alemã (cem anos atrás) propunha a visão de que o sistema capitalista se comporta como um parasita e que este  estaria ameaçado por falta de hospedeiro. No entanto, com a doutrina neoliberal, o capitalismo parece ter alcançado os últimos confins do mundo e não manifesta qualquer sinal de arrefecimento. O capitalismo, hoje em sua versão algorítmica, está mais vivo e criativo do que nunca.

A visão economicista de mundo, vigente há mais de trezentos anos, criou um autómato que escapa à nossa capacidade de compreendê-lo. Daí a necessidade de buscarmos melhores métodos de compreensão da realidade e sermos bem mais criativos que o capital.

Tentando ser  mais didáctico nesta reflexão, levantarei aqui três pressupostos, imbricados entre si, para tentar explicar a complexidade da realidade emergente e ao mesmo tempo identificar os impeditivos à nossa imaginação, os prováveis entraves à mudança do nosso modo de vida. São eles: a cegueira cognitiva, o patriarcado e a política que daí decorre.

 

3.A cegueira cognitiva

O problema do mundo está no animal humano, na medida em que impomos um modelo de sociabilidade incongruente com o meio ambiente, precisamos de uma nova visão de mundo que supere a actual visão mercadológica, ou que pelo menos nos permita criar uma realidade que não seja tão insustentável e distópica quanto a que temos à nossa frente. Sabemos demais como fazer guerra, como controlar o povo, como : “a maior miséria da ciência é ter fundado uma neutralidade tão comprometedora e tão infeliz (…) ao lado de fantástica competência formal, que cresce em ritmo considerável, não tem nada a dizer sobre a felicidade do homem (…). A ciência emerge como possivelmente monstruosa: a criatura humana interferir na ecologia, mas não sabemos quase nada, por vezes nada, de como sermos mais felizes”.

A ciência é um método de investigação e, portanto, sua principal função é aproximar o conhecimento humano da realidade. Se a ciência não cumpre este papel, ela termina por alimentar a nossa cegueira acerca da realidade e, assim, em vez de solucionar os problemas criados pelos humanos acaba por amplificá-los. Em boa medida, parece ter sido isso o que ocorreu com a ciência produzida até o início do século XX, como sugere o educador e sociólogo Pedro Demo. Entretanto, a concepção de mundo oferecida pelas novas ciências da complexidade, surgida especialmente a partir da segunda metade do século XX, começou a superar esta situação e pode nos inspirar nesse difícil empreendimento de eliminar a nossa cegueira sobre a dinâmica da realidade em nosso entorno, ciência da complexidade ou pensamento complexo, que tem no sociólogo, antropólogo e filósofo francês Edgar Morin  um de seus maiores expoentes, defensor da necessidade de uma reforma do pensamento.

Eis alguns considerados mais relevantes: relatividade (Einstein, 1905), princípio da incerteza (Heisenberg, 1927), estruturas dissipativas (Prigogine, 1977), teoria do caos (Briggs, Peat, 2000; Gleick, 1989; Lorenz, 1996), teoria dos fractais (Mandelbrot, 1983; Zimmerman, Hurst, 1993), teoria das catástrofes (Thom, 1989), lógica fuzzy (Kosko, 1995).

Novos conceitos sociológicos como “pós-industrial” (Kumar, 1997), “pós-moderno” (Kumar, 1997; Harvey, 2001), “sociedade da informação” (Castells, 1999), “modernidade reflexiva” (Giddens, 1997), “modernidade líquida” (Bauman, 2001), “hipermodernidade” (Lipovetsky, 2004). Como bem constatou, ainda nos anos 1990, o Nobel em Química (1977), Ilya Prigogine, “assistimos ao surgimento de uma ciência que não mais se limita a situações simplificadas, idealizadas, mas nos põe diante da complexidade do mundo real”.

A complexidade (a origem do termo complexo vem do latim complexus, significa “tecido junto”) é uma visão de mundo aberta. Ela procura acolher e conciliar as inúmeras “verdades” existentes acerca da realidade. Está em permanente processo de descoberta, desconstrução e reconstrução, em um permanente diálogo com a realidade. Seus principais atributos estão ligados à ideia de aleatoriedade, ambiguidade, instabilidade, multiplicidade, imprevisibilidade e incerteza. Como já intuía Dostoiévski, “nada é mais improvável que a realidade”. Como a visão de mundo hegemónica que sustenta o economicismo actual ainda é predominantemente orientada pelo pensamento cartesiano, pela ideia de fragmentação, ordem, controle e certeza, ainda estamos condicionados a um modelo mental que não consegue perceber e lidar com a complexidade do mundo real.

 “A complexidade não é um conceito teórico e sim um facto.

O que caracteriza a actual mudança de época histórica, uma transição marcada pela sensação de incerteza, instabilidade, descontinuidade, desorientação, insegurança e vulnerabilidade. Algo similar, por exemplo, ao que ocorreu na história quando o agrarianismo foi superado pelo industrialismo a partir do século XVIII.

Nesse contexto, os “sintomas mórbidos” surgem, como já ressaltava o grande filósofo italiano António Gramsci, porque na crise o “velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”. No entanto, já existem algumas estratégias.

Uma delas, por exemplo, é aplicar os chamados Operadores Cognitivos do Pensamento Complexo, desenvolvidos, faz um bom tempo, por autores de diversas áreas do conhecimento são eles: circularidade, autoprodução/auto-organização, operador dialógico, operador hologramático, integração sujeito-objecto e ecologia da acção.

4. O patriarcado versus política .

Há outro grande impasse a ser superado, intimamente relacionado a esta nossa cegueira cognitiva: a  cultura patriarcal, como veremos a seguir.

Nosso condicionamento patriarcal milenar de origem biológica (ou existencial como preferem alguns) mas também cultural, que podem ou não estar congruentes entre si. É neste ponto que a história precisa ser revisada. O cultural aqui refere-se às capacidades adquiridas, no sentido antropológico do termo, em que criamos crenças, valores, técnicas, arte, moral, costumes etc, que, em conjunto, expressam a visão de mundo por meio da qual moldamos a nossa realidade. Nesse sentido, a compreensão antropológica da trajectória do Homo sapiens tem uma vertente pouco estudada e valorizada que entende que há flutuações nesta congruência entre o biológico e o cultural, em que o cultural pode  sobrepor-se ao biológico.

Este assunto está aprofundado e registado no livro O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro (Palas Athena, 2007), da socióloga austríaca Riane Eisler, no qual ela investiga como se deu, em algum momento do neolítico, a “encruzilhada evolutiva em nossa pré-história, quando a sociedade humana foi violentamente transformada”. Ela se refere à passagem da “sociedade de parceria” para a “sociedade de dominação”.

Amparada em estudos de conceituados arqueólogos, antropólogos e sociólogos, Eisler defende a ideia de que houve uma “transformação cultural”, a partir de uma revisão sócio antropológica de como se deu a evolução das sociedades humanas, na qual ela propõe dois modelos básicos de sociedade: modelo dominador, é popularmente chamado patriarcado ou matriarcado – a supremacia de uma metade da humanidade sobre a outra e  segundo, no qual as relações sociais se baseiam primordialmente no princípio de união em vez da supremacia, pode ser melhor descrito como modelo de parceria.

O trabalho de Eisler é talvez uma das pesquisas mais abrangentes e transdisciplinares acerca da nossa evolução cultural na pré-história. Além das muitas evidências arqueológicas, históricas e sociológicas, a teoria da “transformação cultural” defendida por Eisler ampara-se também em algumas das recentes teorias da complexidade, especialmente na teoria do caos e da auto-organização dos sistemas, em que grandes mudanças podem ser explicadas “nos pontos de bifurcação e nas encruzilhadas críticos dos sistemas”. Inclusive, essa ideia a faz pensar que o actual “modelo de dominação aparentemente está chegando a seus limites lógicos” e que “hoje nos encontramos em outro ponto de bifurcação potencialmente decisivo”.

Reforça o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, para quem “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”.O biólogo e antropólogo inglês Gregory Bateson afirmava: “a fonte de todos os problemas de hoje é o hiato entre como pensamos e como a natureza funciona”.

Um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade.

A noção de cultura patriarcal a abordar é bem mais ampla do que a do senso comum que a traduz pelo comportamento machista ou pela grande parte da academia que a caracteriza como um sistema de dominação e opressão do homem sobre a mulher.

A cultura matríarcal pré-patriarcal era, também conforme define Maturana, caracterizada por “conversações de participação, inclusão, colaboração, compreensão, acordo, respeito e co-inspiração”, atributos que evidenciavam uma cultura “centrada no amor e na estética, na consciência da harmonia espontânea de todo o vivo e do não vivo, em seu fluxo contínuo de ciclos entrelaçados de transformação de vida e morte”. Não significa dizer que não havia guerras e conflitos.

Para o filósofo, antropólogo e arqueólogo Gordon Childe, a cultura dos europeus primitivos era “pacífica” e “democrática”, sem traços de “chefes concentrando a riqueza das comunidades”, o que o levou à conclusão de que “a antiga ideologia foi modificada, o que pode reflectir uma mudança da organização da sociedade, de matrilinear para patrilinear”.

Segundo este modelo, o que existiu antes da civilização foi antecedido primeiro por uma fase de “selvageria” (caçadores-coletores) e depois de “barbárie” (agricultores e pastores).

Confrontados com as trágicas experiências do século XX, as leituras sócio antropológicas tendem a pensar que não há nada mais selvagem do que a civilização

Immanuel Wallerstein fez a seguinte reflexão: “somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Da maneira como as sociedades evoluem o neoliberalismo está conduzindo o nosso Mundo para um colapso ambiental. Há uma relacção  mercadológica doentia a troca não monetária de valor é o coração e a alma da comunidade, e a comunidade é o elemento essencial, inevitável, da sociedade civil. (…) Numa troca não monetária de valor, dar e receber não é uma transacção. É uma oferta e uma aceitação. Na natureza, quando um ciclo fechado de dar e receber se desequilibra, logo vem a morte e a destruição. É assim na sociedade.”

As maiores expressões do patriarcado, enquanto instância de controle e dominação, estão representadas nas duas principais forças que conduzem a humanidade: o Estado (hoje declinante), pela sua natureza autoritária, e o mercado (cada vez mais ascendente), pelas subjectividades que produz. Estas expressões podem também ser observadas sob as mais variadas formas de relações sociais: familiares, institucionais, educacionais, empresariais, religiosas, dentre muitas.

Pode ser que estejemos em uma nova bifurcação cultural em direcção a uma sociedade neomatrística, na qual o Homo sapiens-demens, como prefere Morin, pode se reconciliar com a sua condição natural.

O ser humano é um animal que não vive sem ilusões e são elas de agora em diante, nosso propósito será identificar nossas imbatíveis ilusões”. Precisa-se urgentemente de uma política que dialogue com a realidade.

John Gray, no seu livro Cachorros de palha (Record, 2006), causou um certo pavor moral em muitos sectores da ciência e da filosofia ainda impregnados com a ideia de que o progresso trará a salvação da humanidade. Em uma das passagens do livro, ele afirma: “a acção política veio a ser um substituto para a salvação, mas nenhum projecto político pode salvar a humanidade de sua condição natural. Por mais radicais que sejam, os programas políticos são modestos expedientes concebidos para lidar com males recorrentes. (…) Cachorros de palha argumenta a favor de uma mudança que se afaste do solipsismo humano. Os humanos não podem salvar o mundo, mas isso não é razão para desespero. Ele não precisa de salvação. Felizmente, os humanos nunca viverão num mundo construído por si mesmos.”

Para a maioria ainda condicionada ao pensamento binário que sustenta a cultura patriarcal, a filosofia de Gray é desconcertante.

 

5. Conclusão

Os espaços políticos hoje estão deteriorados não só por conta do neoliberalismo que vem impondo o modelo empresa de sociabilidade, negador da institucionalidade e da política, mas porque o tipo de política de base patriarcal não é mais tolerado pela nova dinâmica sociocultural que emergiu depois de 1968, quando houve o movimento desencadeado por estudantes e trabalhadores na França, considerados por alguns como a primeira manifestação global pelo fim de posturas conservadoras e opressoras.

Diante dos crescentes fundamentalismos, religiosos e de mercado, que absorvem o Estado e degradam os regimes democráticos, os actores políticos que ainda não se dobraram ao fetiche neoliberal dificilmente conseguiram reverter as regressões em curso se continuarem adoptando a mesma prática política orientada por lutas de classe ou ideológicas.

O Capital ainda constitui o eixo estruturador da civilização. Mas ainda assim, recorrer a Marx como muitos vêm fazendo para superar a crise pela “luta de classes” não parece muito útil e só nos aprisiona ainda mais à arena patriarcal. O geógrafo britânico e professor emérito de antropologia na City University of New York, David Harvey, para quem a necessidade hoje consiste em “estender e aprofundar os mapas cognitivos que carregamos em mente”, é um dos poucos que resgata Marx e vai além do marxismo. Ele entende que “o capital não é o único sujeito possível de uma investigação rigorosa e exaustiva dos nossos males contemporâneos” e que a “ficção de uma dualidade produz todo tipo de desastre político e social”.

“Maio de 1968 ainda não terminou”, ajuda-nos a entender por que superar o patriarcado subjacente à visão mercadológica de mundo é bem mais produtivo do que tentar inutilmente vencer o capitalismo. Segundo ele, “o ponto cego de Marx é que o proletariado também é humano!

O passado já demonstrou que o fato de ter sido vítima não vacina contra a tentação de ser algoz, assim como o fato de ter sido colonizado não o impede de se tornar um dominador. Foi exactamente isso que ocorreu com o “socialismo real” na Rússia. Na história da humanidade talvez não haja um registo de um sistema de dominação tão eficiente em sua crueldade quanto o foi o Stalinismo.

O actual capitalismo de plataforma não só está muito vivo como desafia a noção de sensatez e sanidade. Eis dois exemplos convincentes, dentre muitos: 1) segundo o United States Geological Survey, em apenas dois anos, 2011 e 2012, para dar resposta à crise financeira de 2008, a China consumiu mais cimento (6,651 bilhões de toneladas) do que os EUA consumiram (4,405 bilhões de toneladas) ao longo de todo o século XX; 2) de acordo com uma estimativa da Bloomberg, empresa de monitoramento de mercados financeiros, Jeff Bezos, CEO da Amazon, ganhou em um só dia (20/7/2020) 13 bilhões de dólares, o equivalente a pouco mais da metade do PIB de Honduras (US$ 23,9 bilhões em 2018), mesmo com a economia em recessão por conta da pandemia.

Por isso Harvey, ao reflectir sobre os sentidos do mundo diante de aberrações económicas como estas, defende a necessidade de criarmos novos “arcabouços teóricos”  e abracemos “metodologias mais dialécticas em que as dualidades cartesianas típicas (como aquela entre natureza e cultura) se dissolvam em um único fluxo de destruição criativa histórica e geográfica”.

Os  exemplos citados dizem muito sobre como o capitalismo neoliberal deseja moldar o mundo. E não há em curso nenhum projecto político, no âmbito global, para desviá-lo dessas insanidades. Se a noção de complexidade define melhor o mundo real, como um sistema de pensamento aberto que abraça todas as realidades, por que não pensar, então, numa política do abraço. A metáfora do abraço carrega muitos simbolismos vinculados à noção de complexidade

vale a pena ler o ensaio de Mariotti intitulado Os cinco saberes do pensamento complexo. Nele, Mariotti explica como o “saber abraçar” é uma poderosa estratégia de integração, que, se agregada à política, pode nos levar a um modo de viver mais matrístico e menos patriarcal.

Falo não do abraço no sentido de submissão ao ideário do oponente, seja ele liberal, socialista, anarquista ou de qualquer outra vertente ideológica, mas do abraço que dissipa as polaridades e fundamentalismos, e cria novas sociabilidades inclusivas e plurais. Dos maiores abraços registados na História ocorreu na segunda guerra mundial. Hobsbawm o descreve nesta passagem do seu livro Era dos Extremos (Companhia das Letras, 1995): “a democracia só se salvou porque, para enfrentá-lo (Hitler), houve uma aliança temporária e bizarra entre capitalismo liberal e comunismo”.

Ao que parece, os actuais actores políticos precisam ler e compreender Bauman, Harvey, Morin, Maturana, Eisler e tantos outros. Diante da possibilidade de um futuro tão distópico, a sensatez recomenda não esperar.

 KimdaMagna

 

 

Referências

 

 

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