2011-01-31

BAIRRO LADO AZUL

Joep Hommerson


Olhara e vira na facies branca, como um protesto contra a cor; repetia se esta cena espremendo se pelos anos de minha vida no bairro Lado Azul. Conhecera nela já várias cores de cabelo: usara ruivo fogo, em carrapito, fora loira de risco ao meio, uma vez até misturara castanho com madeixas azuis em corte assimétrico. Imobilizara se porém, nos últimos anos, no negro, cabelo pintado negro azeviche, escorrido e curto. Naquele dia Isma El notara nos olhos dela uma sôfrega vontade de desistência, não das coisas, mas dela própria.

Chamava se Kandida, dizia se dela, ter nascido numa colónia qualquer do nosso Mundo. Vezes sem conta, tentara Isma El abordar Kandida, vezes sem conta chocara com suas armaduras: um bunker herméticamente fechado a chumbo. Diziam ( o povo ), que ela estivera concentrada num campo, desses de refugiados, sózinha exposta aos apetites da facínora que supervisiona as " ajudas internacionais" em carne alheia.

Isma El sabedor destes revezes da vida, esmerava se nas considerações que tecia sobre a irredutível negatividade de Kandida e jogava lhe brilhos nos caminhos que ela pisava com fúria e alheamento. O olhar absorto dela, provocava lhe sempre a ânsia de a proteger e no interior dos seus olhos, lágrimas caiam rolando para dentro. Um homem não deve chorar, pensava ele, outros denegriam na: que ela é que se tinha oferecido por jóias e favores, dados a um amor que lhe surgira, sugador, partindo assim que esgotados os recursos financeiros. Ficara Kandida sózinha, pobre, e desacreditada de tudo e todos a nomeavam de puta.

Eram portanto várias as versões, e nesta indefinição, enigma reforçado no " diz que disse", Isma El não ligou, e agarrou se à ânsia de a proteger e petrificou se em estátua, na praça principal do bairro Lado Azul, no busto o nome Kandida gravado em sangue, nos pétreos lábios uma oferta, uma flor brotava para ser por ela colhida.

2011-01-22

DINAMICAS

 
assim toda vaporosa
uma dinamica tesoada
os gemeos das pernas
convidavam escabrosos
luxuria ANIMA...
Depois...
Inundei profundidades
semen oferecido
espasmos delirium em troca
duas tenazes
as coxas que me cingiam.
Como danca de folha
outonal levantada
em remoinho morno calmo...
o arfar dos peitos
a estalar nos
os sexos.


Ps:A falta de acentos e propositada.

2011-01-13

RAPIDINHAS

RENTE AOS LÁBIOS

Rente aos lábios.

Tropeço em vidro

sigo ainda esses sinais

na Mandrágora macerada onde me deito

o frémito dos dentes

nas covas do corpo, dizia te carinhos

enquanto o catálogo das aves aberto

mostrava os voos, o sol a rastejar te

uma luz tremia nas sílabas

SUSSURADAS.
 
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FLOR MELANCÓLICA


A poeira queima o olhar, fugindo

a luz despida, num levar à boca

falta o regaço no colo da vida

quase é só medo de haver perdido

o caminho do sol, a chuva nos lábios.

Pelo chão

uma sede calcinada, punho a arder

rosto entornado na pedra

lenta explosão da flor

melancólica.

2011-01-05

DISJUNTOR


De repente, bastante perto, ergueu se um ser medonho e vago. O seu cabelo, que ainda no dia anterior era louro como o ouro, estava tão branco de envelhecimento. A casa única, única porta pintada de azul, um puxador de prata polida, ao lado um poleiro, a águia observa as entradas. As texturas de que era feito o Ser, era desconhecido, as suas crinas de espuma mostravam se

Na aproximação de ele para mim, havia em tudo um conforto rudimentar e fresco, um cheiro a sal, a ervas, a madeira, tínhamos como pano de fundo o aspecto horrível dos charcos, de lama simetricamente tratada. Não sei exactamente porque razão o fiz, mas não confiei naquilo. A minha imaginação higiénica estalou sobre a desconfiança ( talvez uma memória genética das carnes rasgadas ), recuei dois passos e olhei lhe as mãos em volta do livro de título em letras negras “ Os procedimentos “, procurando uma lembrança , que me levasse a aceitar o momento, esmagando o estereotipo da não aceitação talvez o conseguisse.

Uma mulher jovem e encantadora, afianço, tinha dois perfis espelhados na mornidão do seu ar primaveril ( acompanhava o Ser ) de arma automática na mão, trajada toda de branco e rendas e via se na sua mochila o contorno de um PC portátil.

Um sentimento que não sei designar experimentei defronte dos indícios de idade avançada e de doença. Os joelhos do Ser vacilavam ao peso do tempo e todo o corpo estremecia… estranhei a juventude do seu olhar, observando a metamorfose do livro em serpente em doidas espirais, qual um sonho dantesco, disse me o Ser:

-Esta é a minha mensagem. Predigito, transformo as coisas. És a minha próxima experiência.

A razão da escolha recaída em mim, ficou por saber, já que agora numa ficha Universal transformado, cumpria o destino da ligação total ao todo, não sem que não houvesse induções eléctricas correctivas e o olhar vigilante da mulher jovem e encantadora, a alternância, doidas espirais umas vezes, livro outras, uma constante no desenrolar do processo globalizante, simples, qualquer disjuntor de quinze amperes o suficiente será, para me desligar.