2010-08-29

POETA PROSADOR


José Mena Abrantes escreveu as trinta e três estórias ( o número talvez relacionado com o icone do amor-Jesus Cristo-) entre 15 de Agosto e 15 de Outubro de 1994, portanto, depois Independência e antes do desaparecimento de Savimbi, de seu nome "Caminhos des-encantados" e é um livro ARREPIANTEMENTE belo.
drama? fição? lírico? realismo? histórico? humor? poesia? idealismo?- tudo isso e mais alguns "algos". Relatos da "Vida" nus e crus.
Na minha humilde opinião inscrevo José Mena Abrantes no rol dos poetas que suam a Angolanidade não só pelo que diz, mas sobretudo, como o diz. 
Escolhi a estória "O sentinela" para vos oferecer:


Quantos mais dias passavam, mais ele tresloucava. Agora dizia-se voador, concorrente dos aviões e dos pássaros. Mas era só dizer, para voar mesmo não estava ainda assim tão louco Subia na árvore mais alta, à entrada da aldeia, e anunciava ao vento os seus voos tresvariados. Os primeiros eram para ali bem perto, quase igual a saltar de paraquedas da árvore. Depois começou a atrever-se mais longe. Já se propunha atravessar a toda aldeia em voo rasante, dar mesmo uma volta pelas matas vizinhas. Explorou a seguir os horizontes mais próximos. De tal modo inscreveu a seguir os seus gritos no dia-a-dia da aldeia que, mesmo sabendo a  inverdade dos feitos, todos se admiravam intimamente da sua coragem de decidir pela primeira vez cruzar o oceano. Quando já dera a volta ao mundo várias vezes, em voos sem escala, e criava as condições para tentar o cosmo, viram-no tombar pesadamente da árvore, tal igual uma avestruz que tentasse voar. O eco da bala só chegou depois. Ao abandonarem a aldeia em chamas, saciados de sangue, um entre os muitos incendiários gabou as estratégias próprias: Eu não disse: abatendo logo a sentinela esta cambada de loucos nem com asas vai poder escapar?...

2010-08-26

KEIMADA

Óleo s/ tela Etona - Angola

jindungo e jinguba
moídos
 preliminares da conversação
dois cálices bojudos
maruvo macerado
nas nossas frentes
pergunto 
imaginas o orgasmo perpétuo?
já estás com os copos?
respondeste
 jindungo a brilhar nos olhos
reforcei
dizem
existir  o movimento
deuses    perpétuos…
porque não outros estados?
enquanto
toda minha ossatura
mastigava o preliminar
calores na medula a subir
propuseste
brindar ao devir
por ser perpétuo
escreveste
com o teu jindungado dedo
no meu peito
de repente
uma Keimada
nós no centro
emudecemos
…fim de conversação.

2010-08-22

Khoi e Ban

Bosquímano


O Tempo
conta só quando se extingue
na morte ou esquecimento.

Em Vida
cada qual no seu
6, 6 mil milhões tempos.

Sou ou tenho uma Pátria?

Se sou não sei
também me falta
registo de propriedade
nem me concederam crédito
para o fazer.

Tudo bem.

A chuva prometida esqueci
as cantorias do Homem novo
não lhes vi
as paredes do Socialismo edíficio
são de chumbo, não há transparência
persiste o Mercantil
cavando os caminhos da fome.

Duas crianças
Khoi e Ban
sentadas
na soleira deste hospício
mundo
perguntam incrédulas
sobre as dúvidas das cores
demora do refazer
sabem
a terra é redonda
o sol   NÃO   nasce
para todos
no mesmo tempo.

2010-08-18

- Estórias

 da Gabela

...doei as recordações, deixei ...  pousadas  na terra húmida: carta minha ao Mundo.
.. a vida encostada a um canto, na Coluna do Eu, amplo apoio, kazumbi nos pós dos narizes todos, espantados brilhos nos olhos, já que o morto é o único Homem sério.
    Estórias de contar ou de ouvir?
Os deuses foram confiscados, lábios selados me disseram esta verdade.
As espécies familiares que pereceram diante da porta...  espanta me não ter sido eu. 
   Diversas causas vão chegando, a morte  apenas e só uma vez, e esse teu burburinho de ser apressado incomoda as minhas calmas vísceras; queres que me rasgue todo e te mostre... para acreditares?
Seria a esplêndida surpresa do desconhecido, saberias também que as ausências desincorporam, e que as palavras caídas por descuido numa folha branca, podem  estimular os olhos e serem punhais de desprezo.
As frases podem ser infeciosas, infetantes, tornarem se até vírus perpétuos, assumirem o infinito, dizia Ximbueko, na voz cansada, que também a Imensidão e o momento Único nos embelezam.
Acredite quem souber.


2010-08-14

ANCIÃO / VELHO

Flor na fenda da Tundavala/Huila



MAIS VELHO - ancião , patriarca, pessoa que
pela sua idade é cheia de saber e experiência
e credora de respeito.


VELHO - pessoa de idade ,vivendo em lares esquecidos ou bancos de jardins , sobrevivendo; quase ninguém o escuta: " é o velho".

Assim se dispõe das palavras fabricando diferenças.

O Mais-Velho e Velho são afinal o mesmo ser ,
só vivendo em "Governos" diferentes.

2010-08-01

EKUMBI LIAENDA


Raúl Silvestre-Angola    ....  "Imigração Mitológica"


Agarrei com unhas e dentes a promessa, sonho acordado,    onde havia um sol só para mim.
Acreditei, como na Gata Borralheira, metamorfose, abóbora em carruagem realeza, meia noite de uma vida qualquer. Prometeram terra para mim, sangue, suor e lágrimas, resgatada, corpos mortos no solo, a quem a dor?
Os culpados nunca aparecem, somem se no ser anterior.
A cor do castigo é branca, amarela, negra ou vermelha, porém,  as vítimas incolores.
His face was blue, on his fingers, corpo de leopardo, cabeça de águia. 
O fogo  arde, a água limpa , unhas e dentes conservados, um fogo de rio, água em labaredas, tudo trocado nos diálogos estabelecidos .
O Lobo mau engoliu ou não a Avózinha?.