2010-07-24

PALAVRA VENENO

Dicionário da Língua Portuguesa


....mais importante que discutirmos se devemos usar - ato ou acto - se K ou QU -, omitir ou não o hifen, deveríamos prestar atenção ás definições que “resolvemos” dar ás palavras.
Isto a propósito de a palavra , entre outras particularidades, ser um símbolo, ter portanto a capacidade de induzir comportamentos, cristalizando os, que diluidos no espaço e no tempo ( tão subliminares que são) nem nos apercebemos do seu verdadeiro alcance.

Por exemplo no Dicionário da Língua Portuguesa, 6ª Edição, 1991:1139. Porto, Porto Editora , um dos seus exemplares está na biblioteca de uma Universidade ( Açores ), e na referida página a definição  dada ao ser mulher é  a  de que é um ser inferior. Não acreditam? ... pois consultem a referida edição.
Podemos condescender e achar até que foi ou é um acto inocente de somenos importância, mas não e se não vejam outro exemplo do mesmo dicionário:

    Obreiro- operário, trabalhador, o que trabalha para o desenvolvimento de qualquer ideia ou doutrina.
    Obreira – Fem. de obreiro, mulher que executa um trabalho remunerado por salário, cada um dos indíviduos estéreis das associações de insectos especialmente abelhas, vespas e formigas.

Se para nos darem a definição de obreira, subalternizam, pois poderiam ter escrito na definição de obreiro também:  Masc. de obreira, refinam porém as definições pois –o obreiro trabalha para o desenvolvimento das ideias enquanto a obreira executa um trabalho e é associada á esterilidade de alguns insectos.

Assim a semântica protocola as desigualdades, mesmo que depois em delírio demagógico se construa uma frase escrevendo: que as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens e blá, blá, blá... E O FACTO É QUE IMPERA O SEXISMO VERBAL.
Curioso então e depois é também o facto de que 99% dos historiadores querendo referir se ao processo evolutivo do ser humano ( nas suas múltiplas facetas) escrevam sempre: o homem fez, o homem inventou a roda, o homem construiu etc.
 Inocente distração? Puro comodismo linguístico?

Ps.Mensagem para a Lusofonia

2010-07-14

COSTAS NAS COSTAS




Eu gostava de lhe mexer ,   ao princípio.
Mexer lhe o juízo, entendamos, cravar lhe uma aranha na garganta, sufoco da beleza, cheiro pesado, quando lhe entrei a primeira vez, olhos arregalados duas vezes, o poder-
Não, não acho, que o coração se me partiu, o que tenho contigo é esquecer me da pena, do furor, o pasmo a perder se, digamos, a pose sexual espiritual minguando.
Discuto te as ideias, contrariamo nos com flores carnívoras, e as ideias escoam se, sem fauna e flora, as emoções.
Situemo nos entre o cá e lá, através da pele, costas nas costas, um no outro um, relatemos então, o mundo que cada qual vê.

 - Diz lá, tu estavas aqui, não é ?
 - Não, agora estou aqui.

As paredes do nosso espaço, pontos pétreos, a dissolverem se, a ondular na transmissão de logros, a explicar nada, tudo parado na calmaria, um caldo morno, um pus.
Por via do costas nas costas, o conhecimento revelou se, o que há para não amar?
Sabemos agora, estamos aqui para fazer escolhas...

2010-07-09

Perfume em brasa

caniglia

Um plano impossível, começou a desenhar se, a libertação da palavra na metáfora íntegra imcompreensível, acabaria por chegar... a tradição morta... paz à sua alma.
A morte vazia da indigestão conteudística do empanturrado psicológico sem anjos ou diabos na paisagem.
Calhou me então um dicionário com palavras de ferro, recriar o mundo pedra a pedra     - pedras de fogo - temperado na floresta do sono, ágil e esquisito.
Falo da contradição que está no ar que respiramos, faz se sentir. Passar da dureza férrea à fluidez do vento, assim como um corpo comum, a própria oscilação interior enquanto vagarosa escultura do mundo, rasga se, envelhecendo farrapos, rotos, as vestes que usamos.
Passado mascarado de presente.
Não há brisas tristes, existem sim, espíritos a espetarem se em pontiagudos desânimos, sofrem nas suas alegrias, doi lhes isto,  aquilo, bezerram pelos cantos.
Sê só, vegetal e só, onde a solidão é impossível. Encosta o ouvido à nudez da terra imponderável, aquém da mãe noturna, acima do pai funéreo, longe dos silêncios brancos.
Levar nas veias da mão, o espírito da noite, num fundo rego, nossa própria carne em feroz transparência, ir pela chuva acima até à nossa infância, e intato, em peso, todo o perfume em brasa, coração ileso.


2010-07-04

Adoraria " trocar" palavras ctgo...


Assim... primitiva
cheiro animal, fera
Pura?

Como vens, não sei
invoco-te e chegas
leves seios veios
radiantemente nus.

O membro em febre, o pecado...
poisa nele a tua carne
acho que posso levantar me
contas de metal ardente
dentro de ti
carícias felinas
as garras nas espáduas
cheio de instintos canibais
quero comer te
montruosa, infernal luxúria
lasciva e nua
flutuando docemente
túmidos batimentos estalavam-te
rasgando contornos
...profundidades.

A chama chora e geme
por nós adentro.

2010-07-02

Breve história de um Reino...

Warren

Aproxima se um vendaval de palavras, os povos erguem barreiras gigantescas, à frente as crianças para o primeiro choque, os velhos convertidos em despojos de guerra serão.
A tecnologia implacável varre a retaguarda frágil, alguns inventos abrem enorme cratera, no flanco que se pensara indestrutível. Os megafones nas mãos sedentas de ouvidores, bradam ordens. Sopra do Norte, um vento de intermitências, fora de horas veloz, lento nas horas certas, delapidando os alicerces, enfraquecendo os sonhos . Variadas angústias cortam afiadas as questões e gentes dos tecidos produtivos: a técnica aprimorada do consumismo criou vazios onde lá atrás havia amor….. barreiras quase intransponíveis se ergueram, solidificaram o marasmo, um deixa andar  inconsciente e perigoso.
Não Sabem, mas acreditam de olhos fechados no tudo que se apresente como ciência, a realidade do laboratório ambulante que somos emulsionados, conservados, corados, aditivos numa ascensão de adição… sobre o enredo dos cinco sentidos, em prateleiras de neopren, os ficheiros derretem se nas chamas corrosivas da soberba, surgem repteis nas mentes, encerrados em nós próprios estreitamos as gretas das nossas cavernas, no paradigma da distração.