2010-05-17

LONGE DA NOSTALGIA MÓRBIDA


Meu amor é ao quadrado da velocidade
                                                 da luz
com um olhar inumerável vejo-te uma figura
                                                         ímpar
poema cinético na madrugada amanhecendo


no meu corpo, na espera, a felicidade
                                             infinita
imperecível defendo-me da nostalgia mórbida
dos temperamentos esgotados, doentes.

2010-05-02

VIDAS

jeremy-mayer
       Sem Mundo


O acordar fora uma aurora deslumbrante, pois que o pensamento dele já sabia da ida à Repartição de Finanças, era um viciado contribuinte, agarrado, sonhava até com os pagamentos e placards electrónicos.
No caminho para lá, Sem Mundo, chilreiando e aos sal-tinhos felizes e esvoaçantes, o seu coração ansiava sempre pelo excelso encontro, como se da primeira vez se tratasse, o paraíso fiscal era ali.

Para Sem Mundo o edifício da Repartição de Finanças era lindo, cinza cor, tinha brilhos inusitados e uma aura envolvente, chamando-o contribuintemente.

Perdia-se em deleite, depois no contacto visual e sensitivo dos barulhinhos electrónicos numerados, melodiosos. Não eram todos para ele, mas era como se o fosse, e ao décimo terceiro "tlim dlom",ocorriam-lhe os almejados orgásticosfiscalizados prazeres. Ali tinha uma identidade, não se sentia só, era um ser pleno e realizado, no seio daquele funcional calor humano dentro e fora dos balcões, os odores e impaciências acomodavam-se.

Mas a vida tem pelo menos dois lados e Sem Mundo usufruia o directo sofrimento, por oposto, na despedida e por não saber quando retornaria ao Paraíso Fiscal, porém aceitava estóico o castigo.
Trabalha oito rigorosas horas por dia na Repartição Estatal e Controlo, desconta para o Serviço de Saúde,
por isso bastas vezes contrai doenças, e até está filiado no Sindicato dos Defensores. Movia-se e flutuava, ri-gorosamente no limiar de um mero conhecimento verbal, que estava sempre disponível, mas não questionava nada e assim, perdia presença. Vivia só para si, nunca casara. Lera São Paulo e aceitara o conselho do Profeta: não queria nada com mulheres, embora não houvesse certezas de que algures dentro dele uma porta se mantinha entreaberta.

Almoça todos os dias à mesma hora e no mesmo snack, por ser mais cómodo e por já lhe conhecerem os hábitos, uma forma de ele imaginar ter também uma família.

        Mari Lia
Igor-Grechanyk
Ouvira um dia dizer que o pensamento fala quando escuta, sendo a linguagem do silêncio a antecamâra do discurso e aquele professor esquisito afirmara que eram como dois amantes, empedernidos, quase em fúria.

Portanto não estranhem as minhas confusões internas com estas filosofias que esvoaçam à minha volta. Eu reparava sim nestes círculos viciosos que nos drogam, nas verdejantes palavras chegando, vejo-as as mil e uma noites das arábias, nos quatro pontos cardeais, anunciando retumbantes esclarecimentos; sim era sonhadora, bailava nua nos brilhos do sol a norte, o sul insuflava-lhe calores. A este e oeste o sol nascia e punha-se no meu colo. O calor não me queima, eu fervo é interiormente, sismica aos toques húmidos.

Este esforço de transpor para o som da voz o som das coisas valerá a pena? Concentro-me no campo semântico que na sua estratégia de ir e vir é sempre mais lento e sinuoso que a percepção visual, na esperança de me escutar poetando todas as fases, mas a minha fenda radical de onde brota a sujeita, é só dor. A Razão assumindo as milenares funções da religião e arte? ...hum, não acredito... O pingo de chuva gelado na testa fez-me retornar e olhando o ceú confirmei que vinha chuva da grossa, lembrei-me que tinha que ir à consulta médica e que era melhor ir andando. Nestes dias assim sentia-se uma máquina paradoxo, grávida do próprio ressoo, do duplo espaço branco, um tesouro de artifícios e o pro-blema é que a dor não mata: esse o vil castigo.

Mas o seu pensamenmto era também dominado pela recordação da última noite, passada em piscina de água férrea quente, experimentara uma queda em clitóris lascivo, permissivo mundo irreal nas pontas dos dedos dele. Tinha sido tudo a primeira vez: a água quente à noite, o clitóris lascivo e os dedos dele. Uma graça de amor em flor espalhando aroma, as minhas faces em rubor o eco devolvia-me tudo, o mundo sortudo girou a nudez mais bela ,faiscando! Conseguira conversar plácidamente da cabeça aos pés nus, enquanto a cor perdurava o púbis acordado