2009-11-30

PRIMEIRAS LUZES




Na acústica da carne, palpitações sobrevoaram as primeiras luzes, meus olhos, minhas mãos, meus lábios, minha face.
...há os pecados da carne, dizia a rádio matinal...watch your step, consegui ler na tinta a desbotar o outdoor.
Levanto ferro, a espuma imensa vê me partir na cadência das marés, animal veloz, passada larga, cruzo a solidão marinha, estou em mim e comigo. Algures na linha do tempo surgira um jornalista sedento de agoiros e má notícias. Procurava ele notícias mórbidas ou as do poder: ouvira ele da existência de alguém do outro lado da vida que sonhava dominar em global consentimento, os cacos e desleixos da nossa programação.
Dos poderes terrenos, donde vinha, falei lhe só do que vira: para evoluir é melhor ser generalista do que especialista. A vida monótona unidireccionada, tinha seus dias em crescente e acelerado desaparecimento, reflectida nos fragmentos do enigma espelho, cintilando onde o mundo cortou a eternidade. Não havia sangue no meu relato, só lágrimas a humanizar as estrelas, um pó vibrante de nervos.
Cabisbaixo o sedento jornalista, deixara de me procurar, talvez me espere nas terrenas vísceras, esse real tão belo.
Ao pé da morte querida, duas asas unidas, dizem me com dor, palavras tais, escritas no meu rasto do mar! Contei lhes tudo: a penúria, o feitiço, as unhas cravadas no feto, os riscos no chão de lápides...
-Como assim meu velho? Tudo é vão, menos a alma. O cetáceo escorrendo água depois do dito, afastou se , ensaindo voar sobre o sussuro do vento.
-Rasto no mar?
Enquanto assim a mim perguntava, apareceu inteiramente nua na parede da vida, a distância irrelevada, uma inscrição final sobrevoando as primeiras luzes, aqui, perto de mim, na minha vida: “Véu do Nada”.


2009-11-28

SONHO em Água Férrea

São Miguel
Água férrea, quente, onde tomo banho.

O vulcão disse-me…
bem, não foi bem o vulcão…

A água férrea quente
do cerne magma incandescente,
sussurrou-me tepidamente na pele,
afagos e dormências…

Bem , não foi bem a água…
A lua vazia de escuridão,
lá no alto testemunhou,
o roçar murmurejante da aragem,
p’lo verde ramado das criptomérias,
a mim sorriu-me brilhos,
cintilava-se na férrea água,
pareceu-me até ouvir um namoro,
entre ela e o vulcão…

Bem , não foi bem a lua…
Propunha-me o vulcão uma troca,
a mim, comum insubstantivo,
mortal andante.
De todo o meu genético código
só lhe interessava a minha mobilidade.
A minha mobilidade…?
Indagando porquês, cogitei receoso…

Conheces bem a minha força
Tenho na memória milhões de inocentes
por mim vitimados.
A raiva da minha lava, é
deusa destruidora…
o sismo, o tsunami, sou eu.
Era jovem, minhas coléricas reacções,
ao malfazer humanóide,
descarregava-as sempre nos imediatos
próximos inocentes.
Doravante,
Com tua mobilidade, castigarei
os certos culpados,
terei a capacidade de me situar, onde
o mal nasce, nos verdadeiros pontos da decisão,
dando a morte a quem a merece.
Bem , não foi bem o vulcão…
O cantar do pássaro, arrancou-me da
tépida férrea dormência,
reconheci-me
deitado sobre o fracturado basalto,
o sonho fora-se.

Bem, foi um sonho…

2009-11-22

[des]AUSÊNCIAS

Manara

Aqui estamos , agora, com este dia de gravidade, de sol meio adormecido, todas as estátuas a arder, não tens fala, nem movimento, nem corpo, reconheço te.
Rosto sério, olho te as ondas desenhadas nas curvas naturais do teu caminhar, o sal na boca
á terra dou me pelo barro que sou, feito basalto que enluta o céu, escoro me entre o ocaso e a maré alta. Mesmo assim o sal é o poema a arder, e as minhas pálpebras de tanto te olhar incandescentes mantêm a noite inteira até ser dia.
Há doçura e beleza na amargurada travessia, uma nódoa num lençol ainda quente, lembrando vinte dedos de ternura afagando, na tua ausência, amor é também, a tua essência, esse perfume sereno e puro como animal do mato.

O vento vai falando do mundo que circula nele, dos beijos ásperos das vespas, das visões e dos gestos e finalmente de nós dois.
Cada posição do teu corpo é um símbolo instantâneo e hermético, tomo nos lábios o silêncio... depois harmoniosamente tudo volta ao seu lugar num esplendor incrível de nudez... depois eu sou o cisne que desliza vencido no teu corpo amanhecido.

2009-11-20

AÇORIANIDADE




Autofágica
Solidão de Açoriano
Isolamento secular
Assolado de erupções piroclásticas
Dor
O outro lado do “Grande oceano”
Escrita lávica
Filosofia comtemporânea
Visão estética
Recriação
Símbolo

cósmica
complexidade onírica
poética

O Magma incandescente
que a seus Pés borbulha.

Blá, blá, blá, blá…

Forças Maléficas e Benéficas
Provérbios
Oscilação da luz
Canto da maia-
Em contexto - reflexão sobre MUNDIVIDÊNCIAS da AÇORIANIDADE
[Conferência Internacional]

2009-11-18

Social gastronómico




E vós sereno anjo…
quando estiveres loiro, junta se o sangue cozido.
És de qualquer modo a Mulher
preparem se todas as aves e cozam se em água, temperada de sal.
Dança para a lua que está escorrendo
entretanto pica se a amêndoa, o toucinho e as maçãs.
Apavorada acordo , na treva, o luar
batem se as gemas de ovos numa tigela.
Mesmo se de súbito não se ouvir o riso da noite
limpem se ligeiramente os ossos, junte se um pouco de sumo de limão.

Estarei ficando louca, o sol a romper a nuvem?

A massa pronta , enche se o bucho, cosendo a abertura com linha
e para quem o suicídio ainda é doce solução.
Enfia se o leitão numa vara ou espeto, que entra pelo ânus e sai pela boca
beberei mais vinte margaritas, ficarei mais terna.
Põe se o açúcar em ponto de cabelo
minha carne é cor de rosa.
Vai ao forno a assar, em lume médio
mostrando as pernas sem saia.
Tempera se então com sal, pimenta, colorau
mas que eu devo resistir, que é preciso.
Derrete se o fermento num pouco de leite
uma colcha tricotada, concluída fica.

2009-11-15

SEMENTES [de seda




O primeiro verso que trouxe o mar, esse mesmo, onde teu corpo molhado antes estivera
– ondas perfumadas-
indistinta permaneceu porém a cor dos teus olhos, enquanto a espuma, molhava as areias sequiosas.
O mar é gentilmente materno e o imaginário desejante que o momento projectou, esbateu se no meu corpo, perfeito e calmo nas vagas ondulantes vi te passar como um raio.
O vento varria tudo... e as sujidades. Quando eu possesso de altas musas meio submergido nos destroços do presente,
é tempo ainda
lia se num dos versos o fluir da água dentro do sentido , do percurso, tentava a delicada forma da linha de água para suster me nas referências nucleares, porque os contextos intermitentes iludem e fragilizam minhas hastes.
O amor a escorrer melancolia, na tua face de mulher desgrenhada, mesmo quando dormes o teu sono agitado, sonâmbula olhas através de uma janela a lua cheia, aluada, tens uns olhos imensos.
Essa luz que me cegas é mesmo tua, ou simples reflexo do astro rei?

O cansaço da fatigada luz da sombra, interferindo com a minha sede de ser...
O coração habitado...

2009-11-11

RESISTÊNCIA AO PARADIGMA



A escuridão é sólida, abandono me molemente, a conjuntura é uma espécie de palavra-gazua, para abrir várias saídas, desculpas.
Pousei as minhas mãos nas tuas dúvidas.
Cravei uma estaca neste chão, vergado de cansado
ceifado breve
por um sol rasante
bronze esverdeado, de espaço em espaço de como e de quando a “mania” das influências, os patriotas da língua e da civilização um cheiro sulfereado de vermelho, de correr mundo já exausto.
Entre as casas rústicas a estrada a ti conduz, uma chegada da alma tardia no espírito daquele escritor maligno a pretender reviver à minha custa.
Porque demoraste?
Tive te hoje, enfim partiste. A humanidade é sempre a mesma, a ilusão é que é nova. Tudo vai: todo o passado, o beijo de infinita ausência, as coisas…
O Viver que grita MUITO é a tábua de salvação… SE PENSAR UM INSTANTE.

2009-11-07

ESCRAVO DO SONHO

Olhares.com


Os fracos que me escrevam. Caso me engane na resposta de modo algum aceitarei a porta fechada: do profícuo rastejar realizarei uma miragem.
À ausência total de árvores responderei um verde corrosivo, brilho cio, abruptamente condensado na oferta do baço corpo, espero assim iludir os sacos de provisões onde o deserto se acaba. Escutarei atentamente a ordem persistente que me fala das asas fechadas, mesmo sendo verdadeiras as palavras podem me enganar.
Abdico do poder, a mulher de mim, o raio desliga por momentos o trovão, é silêncio e as pétalas chamuscadas esmorecem em secura. Como é seu hábito, o oásis, persiste no deserto - por companhia agora o frio polar - e nas ténues obscuridades interiores, lá mesmo no seu centro, um vulto de cócoras cozinha folhas tenras de imperfeições espirituais.
Neste espaço os semelhantes juntam se, a união faz a semelhança.
Olhando em volta e chegado ao momento em que digo, o sono levara me, o vento cálido apaga o lume no deserto, a volver me em poeira, subo rápido pela renúncia / entrega, defino me fios de mobilidade aérea, sou um grão de vento, nuvem que chove a pedra filosofal.
Enquanto suspenso e me deslocara no ar, desferira golpes, em todos os sentidos, os reflexos também. Doravante os culpados espelhos seriam banidos, a experiência da temporalidade assim o quis.
Tudo mudou, os seres que seguíamos foram apagados pelo tempo e pelo ar salgado, quando abaixei meu corpo, vinha ter contigo, guardara te nos olhos, contra o afastamento do corpo - protegido - sou apenas um corpo nu e onde a água, a terra, o fogo, o ar se confundem.

2009-11-03

A PALAVRA VÊ

Flakfotos

Imaginemos…

Ao lado de faces de Vénus, fraternalmente
Um baralho, sobrepõe se, deslizando
Toma um banho num mar que apareceu…
Ponho a mão sobre o texto
E a mulher para se salvar
Do perigo eminente, diz:
-O meu destino é hoje!
Sentia se livre assim no interior da liberdade
Que lhe ocorria
Sem saber do perigo inevitável, deleitava se
Textuante sobre as palavras
Adormecia nos pontos de interrogação

Bem… é um texto leve e jubiloso…

Imaginemos…
O rasto da mutação da narratividade
Talvez , impostura da língua
Pretensão que se diz
O que não se está a dizer

A letra é uma aresta
Em determinadas regiões do corpo
Na acidental diversidade dos seres
A escrita imagem quase felina
Sem crueldade no olhar

A preocupação de autenticidade
Preocupa me neste chão da linguagem
Onde a palavra vê o ausente.