2009-10-30

SALIÊNCIA NEUROLÓGICA


As metas anfetaminas
predilectas substâncias químicas
[segunda geração]
saliência neurológica.

A alegria de ser entendível com silêncio
está morta…

Senti me um impostor
ao receber o prémio
do livro escrito.

As dopaminas neurotransmitem
génios abortados no parto
do sono inicial
a nossa voz de morte
entrevada, pelos cantos da vida
definha em dependência.
É tão triste não ver a luz do sol
andar vestida de frios horrores
passeando em guerra de morte
alucinações de dor.

2009-10-26

ESPAÇO / TEMPO




esquinas desatadas

dobrados os nós
inversa estranha vida

por ela deslizam penas leves
túmulos de peso

esperneia em fios presa
a tarântula sedosa
estouvadamente linda

o olho do mundo
verte se em cegueira

politemporal

2009-10-23

CASULO DE VÍBORAS

Amadeo de Souza-Cardoso


...apática distância
arquivolta perfeita… não
abóbada da morte

descarnada
a sombra penetra
paisagem lasciva

mancha de penumbra
o arfar do medo
corpo refém

capitel
cúmplice da pele

retrato e vida
na moldura
relembram

o que não existiu
rasgada com maldade
a falante inocência

infecto
casulo
de víboras...

2009-10-20

O conta-orgasmos

Martins-de-Barros


As cavalgaduras afluiam ao espaço, rendilhado de verdes matizes.
Puros sangue, mulas e os mais cinzentos asnos.

Carregavam nos seus dorsos, as donzelas
que gemiam gemidos no quadrúpeante caminhar
jogo de quadris, roçando o cabedal das selas, desfaziam se
em uis e ais, no calor das garupas, húmidas entre pernas
com cheiro de vida lá dentro.

O conta-orgasmos da rainha donzela
registara várias centenas ao longo do ano...

Caiu uma tristeza, quando a rainha avisou:
Acabou se!

Eram orgasmos que saiam por inteiro,
com cascatas de suor, dentadas e demais gestos acessórios
as donzelas sentiam se abusadas...
que os orgasmos eram contra elas, pelo olfacto da memória
o cheiro maçã de esperma dos lençois
agora
o cheiro das cavalgaduras, depois de uma caminhada
diluindo se nas narinas ofegantes...

Todos ficaram a olhar.

2009-10-17

Medo condenado




... o Medo

indizível...

o medo

que, do escuro, leva

à Clareza...

o medo

condenado....


não há definição do verso

perfeitamente satisfatória

nem a quantidade

nem o ritmo

nem as sílabas


ética e estética

acentuadas que sejam a distância

entre

o único e o múltiplo.


2009-10-06

MEL / FEL

Carrie-ann-Baade



Tinha muita sede... Felizmente estava aberto...
...Girassol em flor…

Não era brincadeira, ele que visse bem quando chegado à rua
os revolucionários , caixas de fósforos nas mãos, premeditadamente
incendiáveis, porém faltava a lixa
[ nas mãos do Governo estava a lixa].

Dois verbos já mortos...
Parar... recuar...

A intensidade do momento vivido, helicoidal turbina, nosso coração.

Temos a ilusão de que com a inteligência
a insensibilidade kotidiana se cocaíne no hábito da indiferença
absurdamente adaptada a perfeição, a uma irregular concavidade.

Desci preocupado as escadas, com a noção exacta da profundidade
cada degrau era um mundo e a luz faltava de repente
só ficando visível, a minha caricatura cheia de remorsos
nada me seduzia nos originais perdidos
nem pequenos ou grandes... não sou capaz.

À beira da última estrada, havia uma majestosa árvore
encostei me ali, imediatamente antes da transposição para além
um último gesto olhar na cidade masturbadora
mármore vivo, entrelaçado no enxofre
percorrer me sem desvios, será minha intenção...

além...

2009-10-02

Eu sou o pouco

Carlos-Huante

coito de impotentes visceral veludo a mentira é o sonho nós não estamos algures
lia
nos olhos deles a maneira como usavam as palavras diferentes quando ouvidas a perfeição sempre inacabada cama do círculo de amantes
são
palavras só podem ser o que são escritas na pedra no lugar dos buracos cintila o verde os dedos da água desenrolam rios
qual
o saber ouvido no roçar da pedra solitária profundamente depositada no leito como conter no limite do corpo todas as palavras que nos dizem adeus
voltam
mudadas partem e regressam diferentes não te canses da sorte de teres a dúvida dentro de ti
procurara
sim era louco não queria ser apanhado desprevenido quando a loucura irrompesse em tsunami vida tensa e ardente uma carnal metamorfose a liberdade era ele
a poesia procura nos
talvez ela queira dizer alguma coisa olhar a folha que cai na sua sombra fatal e maravilha no volume incestuoso
das palavras
é uma ilusão pensar que o duplo é o outro os lábios da primavera serem azuis o universo ser este vivido no riso dos dentes
eu sou o pouco de nada me vale