2009-09-26

BAILE DE MÁSCARAS

Justin Schaefer


O dia surgira pesado de fatalidade. Encosto a cara ao frio vidro janela. Gotas de sangue, no exterior, deslizam pela vidraça, corrimentos do Sistema Mundial de Saúde.
Bebo o café da manhã no silêncio da penumbra, lá fora caminham seres humanos ordenados por um beco sem saída. A minha reacção imediata foi de náusea e apeteceu me fugir dali, mas estacado no pavor, virei a cabeça e com um olhar de gozo, cheio de coragem, esqueci me...

Parecia um baile de máscaras, no prostíbulo uma Deusa , o fascínio do corpo e do sexo, numa plástica perfeita do absoluto. A luz negra, faz se ouvir num fado nostálgico, na jukebox do canto; regatos entre campos a despropósito, pareciam fora do sítio.
Latejam me as frontes de tanto ver e pensar. De estrelas nada sei, conheço sim, a beleza bamboleante de carnes rijas, afrikanas, nádegas espetadas no balanço da passada.
Olho me reflectido nos destroços do alcatrão, sou irmão da solidão, na família do labirinto enfeitiçado, com festas de anos e natais.

Vou sair logo à noite e dançar, deixar meu corpo voar, girar meu corpo quente e nu nas mãos de quem quizer... na areia! Talvez assim esqueça, seduzido pelo rodopio a girar sem parar na velocidade escaldante amnésica... a cantar, a cantar espantando meu mal, descansarei o esforço guerreiro na matinal tasca etílica pose. Ali aguardarei a chegada da onírica estrela da manhã. Vejo me depois a deslizar nebulosamente pela frescura das ruelas, pressentindo a cidade a maquinar, fechada em casa, ligada à rede.
Hum, que delícia o cheiro do pão quente e fresco em forno de lenha.

2009-09-24

Esqueléctico Amor

Chris Peters


Ter o lugar dos meus olhos
encostados ao teu peito…
Resolvêramos testar
despidos das vestes humanas
o nosso amor.
Talvez houvesse uma consistência
loucura, labirinto, infinito
no toque afectuoso dos ossos
sentimos, pasme se, uma doçura
sacropélvica ternura, o som dos toques
calcificantes espasmos
quando me afagaste o fremente fémur
tua mandíbula mordendo ,o estribo ardente
os olhos dilatados
[ se os tivéssemos] p’la invasão
da embriaguês, mil e uma fantasias
uma luz neón, de pluma leve
escrevendo caminhos ofegantes
em sustentáculo responsável
os esqueletos
em frenesim…
Sim!Sim!Sim!
[rs,rs,rs, de um outro esqueleto que se afasta

2009-09-19

Antecedendo a idade da razão...



O olhar sublime afirmava domínio absoluto, o cabelo ondulava
meras aparências de pureza, jovens carícias, naturais
cauda enroscada e a fatal manha.

Manhã

Apressada em seu curso, perante a terra toda, que somos nós
Florestas, Rochas, Rios e toda a sua carga, pelas gretas hirsutas
horríveis confusões, geradas são.

Quanto tempo passará até que o berço do Sol nos acolha?

Seremos os todos anéis sinuosos descobertos ao tenebroso plano
que em reflexos de ouro, nos alicia oblíquamente abismos informes
ferozmente expostos em canteiros floridos.

Lucifer

Reemergindo no esplendor da sua angélica natureza
no inferno da sua alma, a ira revoltada
impulsiona o orgulho, subtilmente, num jogo de semelhanças,
o voo soberbo do abutre, repugnante alimenta se de cadávares.

Anjo caído na sórdida vegetação, animal comum
Em decadência com lampejos de grandeza.

Um pobre Diabo.

2009-09-17

HOJE




pigmeu da trivialidade
um demónio nascido demónio,
monstruoso, mente gangrenada…
belo trabalho, meu passarinho,
fizeste no charco imundo da tua gruta.

olha o belo guarda-roupa,
que há aqui para te vestires,
a boca amarrada para te calares,
deitadas aos teus pés, pétalas.
deglutirás a minha escura agonia,
que vem da primeira primitiva insatisfação.

tudo passado, e a voz do arado
reclama injustiças, histórias esquecidas
mortos já sem vida, não há cais.

olhei te, como se chegássemos
a um jogo de memória, um baú de ossos
tesouro de pergaminhos bolorentos.
trouxemos do beijo fauno
alcova de alvíssima levedura
a alma do poeta gracejando
entesando uma densidade
outra leveza.

2009-09-14

FEMEOHOMOSAPIENS


Será esta noite! Está dito!
Parararei a engrenagem do universo
até te descobrir
ficará sempre noite.
Guardadas ficarão as porcas e parafusos
caso exista algum percalço.

Incansável indagarei
andarei...
Se o que vejo em ti,
estará realmente contigo
ou
será o que meu cérebro acredita de amor em ti?
Consciência transitiva?
Estados mentais e qualia?

Não quero complicar.

Agora com o universo parado
pegarei teu coração para analisar
com o bisturi bem afiado
abrirei em todas as partes
até ouvir gritar
as tuas artes.

Usarei máscara protectora
antisépticos poderosos
luvas de latex
para me proteger
de toda a infecção.

Para encontrar o defeito
que atesta o estarmos vivos.
Serão os verbos os culpados
do nosso assombro?

2009-09-10

A FRIA NEVE VIRGINAL




Caminhava… sentia as patas bem assentes, naquele rectílinio e ordenado passeio de calcário e basalto desenhado em arte comportamental.
Nos bolsos, directrizes.
O sistema financeiro, a malha social e a notícia alarmante de que, dos frutos restavam só os caroços: a polpa e sumo açambarcados pelo sistema produtivo para satisfazer uma encomenda vantajosa duma galáxia distante; traria muitos lucros e bem estar às populações terratenentes , dizia se à boca cheia e em comunicado oficial.
Do lado da galáxia distante compradora, um só comunicado em código, nos fora enviado, para além claro da encomenda. Diziam eles, que não eram os deuses procurados pelos terráqueos, eles próprios carenciavam tais entidades.
Não havia nada a perdoar, pensei, mesmo até porque a entidade Reguladora era a única detentora dos caroços, assim garantido, ninguém mais semearia sem autorização prévia.
Contava eu a Mari Lia, a minha história quando ela me interrompeu rispidamente:
- Querido, essa dos caroços e compras, é nada perante o meu problema e com uma lágrima de arrependimento rolando, disse me que fora dismistificado o mito dos retardatários orgasmos femininos, sofriam elas mesmas de uma disfunção sexual, que as inibia ou retardava os dito cujos.
Sim, dá a ideia que poderíamos viver vidas fáceis como nos contos e novelas disse lhe.
Tal como a manhã se insinua na noite, eram, os meus sentidos tapados pela névoa da ignorância.
Acabaram se meus encantos.
Como sei?
E como, o não sabes?

A fria neve virginal.

2009-09-08

DIGESTIVO ETÍLICO




O álcool armazenado nas veias do pescoço ancestral
numa forma desinfectante
de estar drogado.
no chão uma maçã absorta olha e estranha a estepe, é de algum modo poderosa,
mas incomoda a o cheiro podre do ovo ao seu lado.
a nossa mão [humana] perde se no começo sangue animal,
arranca bocados de nós e mastiga os. nada que um bom digestivo etílico
não possa resolver, o instante animado da desmemória.
pela boca entreaberta vai se nos o espanto, outras formas do silêncio
revelam toda a podridão, alcançando a sua cozedura.

um insecto lendo Kant?
o hipopótamo compondo uma sinfonia?
uma bactéria a escrever poemas?

nada perturba o meu sono.

não nos foi permitido o acto heróico de ser o interior das coisas
nem nos falaram da região infértil.
ensinaram nos a caminhar, sonhando um grande palácio,
as muitas formas de aplicar a morte
vermo nos vivos, entre a morte, a mais usada
ao redor do jardim em movimento nulo.

Os pássaros não aprendem a voar nos fundos dos pântanos.

2009-09-05

A função da cor branca

Um novelo desfaz se em quatro pontas, sou eu esse novelo. A minha irrealidade, ignora a imagem de espuma que construo. Mesmo assim vi a fenda , posicionando se em vários pontos .
Juro que [entrei te e saí te] ao som dos teus desejos, sinfonia inacabada, sempre com pézinhos de seda no apogeu da glória, refractária ficaste, donzela lúbrica em argila dilatada, empurrada pela aflição do “eu”. Quisera eu levantar me do meu cadáver e sair á procura de quem sou, as sílabas em excisão, excisão da carne, entrincheirada nos dialectos dos afectos. Ser a mesa posta de frutos tropicais, borboletas de luz, no intento de derreter esse frio glaciar, descarnar o coração para que o cheires.
Levar te para o fosso vertical, animais como únicos sobreviventes, corpos para a violação do eu impraticável , ombros de marinheiros convidando nos, adormecermos ao som da madeira que range.
Estar no lugar inexacto, ali mesmo onde os cães são amantes, nomes e números e eclipses, no exacto centro das imagens velozes, afagar a totalidade dos nossos actos insanes seria [talvez] a nossa cura.
Sou agora mais cínico, caminho mais lerdo, como uma retrospectiva da morte.Sei agora que a linguagem é uma escada para subir às coisas e não saber como descer, mas não resisto a perguntar te qual a função da cor branca nas nossas vidas.
A ver se nos entendemos.

2009-09-04

Déficite de- ATENÇÃO


Os olhos do menino , um azul, o outro transparente, choravam a perda do seu patinho de plástico. Sentado no patamar de cúbica forma, de costas voltadas para tudo, o seu olho transparente vê toda a forma volátil, o olho azul imagina correrias por pistas de céu. Mantêm-se, entretanto, rios de lágrimas escorrendo por si abaixo.
Na mesma rua vivia o homem cego de olhar o sol de frente; perdera as âncoras e os títulos numa tempestade medonha que enfrentara de peito aberto, buscando a própria alma que se escondia envergonhada no sótão do desespero.
Existia também nesta cidade, o biólogo maluco, sempre em laboratório fechado, cogitando desaires e atrevimentos numa busca incansável de ser deus. Escorregara um dia na proveta de ácido sulfúrico, queimando os olhos, não desistiu, laboratoriou a feitura de um olho mecânico, tendo como sonho fazer do cérebro uma fábrica química. Para ele o ser humano “ nada mais é” que um equilíbrio de químicos.
Neste país os homens pegam os toiros pelos cornos, as mulheres fixam o olhar no chão, os políticos passeiam se em crise de charuto na mão e eu ensaio escrever poesia porque sei que depois não farei mais nada.
E assim sucessivamente, até ao cansaço.
No antigo bairro, as putas secam os seus cabelos ao sol, abrem madeixas para que chegue até ao crânio, sobrevém o cansaço, rodeado pelos afectos de perpétuos adolescentes. Nem todos os habitantes da cidade são cidadãos, mas tu e eu, sempre réus vagabundos sem tempo e sem espaço.
A noite incessante enreda nos os pés, nos tolhe.

2009-09-02

TRAMAS ( Verbo ou Substantivo)




Sucedo me nos ruídos em que ardo
nenhuma justificação entre os símbolos
só por mim repetem a permutável soma de razões...

Mas o vazio, tinha nesse dia
uma luz forte, palpável, perante
o aborto feito com uma agulha
rodeado de horizontes e água
porque nos portos se pode esquecer e receber
esquecer e voltar.

Esburacadas pelas sombras
as sirenes mortas
na horrível trama do porquê e o quando.

Morrer, é escolher a vida?

Uma gravidade inerte
( como metáfora vã)
sou a dignidade do mundo contente
consistente em conservar
inclemências de ruína
com desenhos em areia húmida
a próxima onda apagará
pássaros a estalar os seus peitos
o lugar foi cercado
pelo teatro do gelo.

Estou tranquilo, sou o escriba
da pedra, e a pedra é a lua.

Na soma dos actos
reuniões cósmicas, decidem conclusões:
os cordeis que nos unem são os limites
algumas ilusões de cinza
existem.

As pálpebras para te ver...

Feria a luz ( azul branca ácida )
o fundo sempre negro
os enredos nos versos
uma furibunda acumulação
de escolhos, de pais e filhos
um vocabulário anticoncepcional.