2008-11-23

{ TANTA Noite }



Como a noite era tanta, fora do perfil, via astros virtuais nas linhas da palma da minha mão, fingia-me também das letras…pois se escrevo com o indicador dedo, e uivo nos amanheceres do criativo, que crime me merecia então castigo?

Olho-te daqui da engradada janela, meus vernizes perderam os brilhos, nua me vejo, nas paisagens vácuas, flutuando ao sabor dos caprichos com que me presenteias. O meu olhar pedira-te o afago de um silêncio, mas que o fizesses no lugar dos meta[ ]foras, que apalpasses este nervo que em mim freme, causando nós nas esquinas recortadas das existenciais vidas. Afinal o nervo não é palpável nem visível. Mentia-te para uma aproximação a ti. A nossa distância era tanta, como a noite, mas nosso caminhar era paralelo, feito de verdes talos frágeis…

Olhei me. Nem nua nem vestida. Percorria-me, sim, a cadência do teu respirar, como se tivesses por casa uma estrela, cautelosamente nas pontas dos teus dedos oferecida. Por vezes o brilho ( da estrela ) era demasiado intenso para a albinidade de meus olhos provocando descoincidências, emergentes da doce melancolia que me prometias e raras vezes era concedida.
Sinto me assim como um fim de festa, não começada. Se pudesse calaria , longamente, a poesia, comeria de faca e garfo os bocados de ti, enquanto as sobras das nossas terras lavradas,
alimentariam a curiosidade duma criança por hora suspensa no trapézio do esquecimento.

Está na minha memória aquele dia em que nos expusemos ao fulminante raio, chamuscados, os actos presentes que foram, revigoraram em nós as cosmicidades ( muito faladas ) nunca vistas, que se falássemos aos outros, deste acontecer, não nos acreditariam.
Triste, mesmo, foi, o dia ( chorei ) em que partiste, deixando minha teia de aranha sem função, e eu já fora da Acção, radicalmente perplexa, esconjurei o suposto Deus fazedor
dos enlaces, também chamado de Cupido, ele próprio e doravante, algemado ás grades do tempo, transformado em partículas anónimas não contínuas, nem puras.

Tomarei lugar no cogumelo atómico, cheia de certezas, alcançarei o lugar para onde foste, esvaindo me em Pura perda de amor, um novo fazer, sem começos nem fins, descobriremos…

[Discurso de Mulata Jinga no contexto da 13ª Dimensão.]