2008-10-28

Interacção quase amorosa






Um chão escuro não reflectante pisara eu, naquele lapso de tempo que mediou entre mim e a escada por ela montada e exposta. Qual Romeu? subiria a ela, ocorreu me de repente. Neste processo. Ou será acção? temos uma climatologia a considerar. As temperaturas não são iguais, quero eu dizer a escada é comprida e a subir, portanto a temperatura da base não é a mesma do topo. No outro dia , não me esqueceu, queimei meu rosto em teu peito ( por sobre o coração), tentando ouvi lo.
Mas tu és uma Julieta moderna, dominas informáticos meandros, variadas tecnologias de ponta, não tenho dúvida nenhuma que logo acharás o par ideal, disse lhe enquanto olhava o mergulho, vermelho fogo, do Sol desaparecendo no horizonte.
Ouve lá, a escada não é para ninguém subir, é para eu descer, para dar conforto às minhas colecções, libertar meus olhos vendo o Nascer e o Poente do Sol, respondeu me ela.
Sim tínhamos isso em comum: O Sol. Será que temos as mesmas ervas verdes… os mesmos rios…os mesmos invernos em comum, perguntei baixinho e quase a medo.
- A apresentação dos objectos, o sentido intentado, as explicações da acção social não me interessam, já passei essa fase, minha bíblia agora é o toque da pele humana, a macieza dos tratos, o cheiro natural dos corpos, persigo com corpo sem a alma, a evidência racional. Achas isso errado?
Sem alma ainda encaixava em mim, eu nascera sem ela, no resto aquilo era linguagem incompreensível para mim, pensei, sem lhe responder.
- Achas errado?
Errado ou certo, não sei , lido mal com esse assunto Existem as esperas, o imprevisível, os depois, os nevoeiros, os meridianos trocados, disse , sorrindo lhe. Além disso, tenho uma deficiência física, a artrite impede me o uso de escadas, arrematei, abrindo um pouco mais o sorriso.
- Falta te é a coragem de subires, tens vertigens na visão de cima para baixo? As cores vistas de cima são mais fortes, o brilho delas são os nossos olhos, não te esqueças, o brilho delas são os nossos olhos.
Ficaram suas últimas palavras , enquanto os meus mortiços olhos acompanharam sua ida.

2008-10-08

Carta a Ximbueko



Ambwi, 08-10-08
as fontes murmurantes que alimentam a sede de muros brancos presos em estendal de roupas a secar nossos olhos são as molas que as seguram -- não me lamento da ociosidade da tua não escrita pondero é o círculo e o ciclo espalmados nas vias que me abrem improvisações ocasionais breves exposições que o tempo pressionante não me deixa respirar -- amo te através das pontes e das paisagens que não existem -- quando falo assim temo a paciência dos mais velhos as correrias dos inversos propósitos a frieza de um pensamento sem corpo que o sustente -- ao disparate de bicicletas rolantes na face escondida da lua contraponho o húmido germinar da semente -- avança memória com as tuas asas em escafandro no interior de muitas águas e profundidade vejo a tua imagem nas gotas particulares -- custa me a crer que a rotura é factor de conversão humana -- a semelhança de uma outra vida exaspera me.


Viye

2008-10-07

Carta a Viye




Os melhores ângulos, onde sangra a ave fazem me, excitam a minha
ignorância. À espera de uma brisa, de um papel de seda amarrotado, o fruto amadurece. Espera se nas franjadas mesas de copos vazios.
Houvera um sinal. Um piano com ritmo , afastado pela massa de fumo num espasmo insolúvel. Olho o braço pousado ao telefone, falas irreverentes acercam se, equívoco de um circuito anómalo em relação à circunstância de uma memória desconhecida.
A morte do silêncio espelhava se no nítido espelho em incurável repouso. Solto um suspiro, respiro fundo as salvas e urzes queimadas entre folhas muito largas e verdes.
Mais á frente minas anti-pessoais, cicatrizes minhas escondidas no descanso do olhar. Uma devolução da nudez, ao lado do caminho deixarei lugar.
Chamavas me, sentada na saleta, ensinando me, olhavas me de frente, prolongando a noite, éramos sós.


Ximbueko