2008-08-29

Rimas

três traços
bagaços
pedaços

framboesa
Aõ!Aõ!Aõ!
sobre a mesa
latido de cão
certeza
tudo em vão

gelado ardente
marketing engano
mão por baixo
encaixo
social pano
pouco crente

a mentira
Alzira
não é
a Fé

pé cortado
língua amarrada
que faço agora?
subo a escada?
vou embora?
fico deitado

um chão céu
seria
para lá do véu

2008-08-06

MACHA PARIÇÃO



Por acumulação, acontecia durante a queda da chuva miudinha, a do molha tolos, o tecto celestial aproximava-se perigosamente de mim. Julguei eu que os transeuntes eram aladas figuras, sem asas porém. Da minha entreaberta porta , por precaução , duvidava do que poderia acontecer. Desta maneira apalpava os medos feéricos de alguns outros transeuntes, mais em transe do que em caminhada. Na brilhante aquática superfície em marina convertida , inúmeros barcos ocupam seu espaço, navegando ancorados. Consegui distinguir João Adidas em minúscula lancha em gritante contraste com a circundante iatista riqueza.
Havia um prenúncio de tempestade nos gestos das águas, as ilhas, estas, são dadas a cambiantes ventos e inesperados tremores.
Soubera que João Adidas era um descendente directo dos ancestrais portugueses navegantes, era porém hoje um desvalido sem dinheiro e limitado de mares. Teimava ele portanto em mostrar os primórdios dos tempos, aqueles da coragem de como, se afrontara o desconhecido; saía para o mar só em tempos de tempestades. Inúmeras vezes saíra , outras tantas voltara.
Os tempos são livres, vão e vêm , os sois põem-se interminavelmente, as marés mantêm-se em actividade.
A lancha de João Adidas era afinal um barco ( não tinha motor); João Adidas gostava mesmo era de remar, dizia ele que o barulho das máquinas artificiais, enlouqueciam os fundos dos Oceanos, provocando desequilíbrios termodinâmicos , reforçava ele.
O prenúncio, passado um par de dias e nos gestos das águas trouxe a tempestade. Nunca tal houvera , ondas daquela grandeza, pelo menos ninguém se lembrava , uns falavam de quinze metros outros de quarenta metros mais alguns asseveravam ser de cinquenta a altura delas.
Nesse dia continuava eu na minha entreaberta porta, desistira de frequentar outros lugares com a promessa de que veria as ondas chegar e acabarem lá em baixo, habitava eu a mil e duzentos metros de altitude e usava binóculos, por isso vos conto.
Vi no começo da tempestade, João Adidas no seu barco remando de encontro às ondas, á sua volta já eram avantajados os destroços, o mastro em feitio de cruz quebrara logo na primeira onda que ele incólume conseguiu passar, pareceu-me até que o barco e o próprio João Adidas se tornaram maiores, regulando eu em dúvida os binóculos. Parecia até ele próprio um Deus , nada parecido com Neptuno , reconheci. Os gritos e choros das sofredoras gentes, apanhadas desprevenidas no turbilhão dos gestos das águas, confundiam a minha visão. Duvidava eu agora da visão ao ver que depois de novo mergulho para lá de mais uma onda, o barco já era de cor negra e maior se tornara e ele João Adidas em figura Satânica se apresentava. Parecia ser a sua presença a causa da nova onda que se aproximava, composta de Hippocampus, na sua largura e altura, aos milhares, que em violentas contorções ensaiavam expelirem as suas crias.
João Adidas e o seu barco, reparei , tinham voltado á primitiva forma : minúsculos! Engolidos foram então pelo criativo acontecimento.
Bastava-me o até agora visto. Fechei a entreaberta porta.
Adormeci-me na minha escuridão.