2007-09-25

GOELAS ADENTRO


No seio de uma inferência
raivosamente meti-me
as mãos goelas adentro
alcancei a infíma
oposta parte do superficial
Meu centro.
Revirei-me do avesso
expostos conteúdos
meus.
O sacana Ego
enigmático zombando
a casta centralizadora semântica.
Busquei-me o cerne tolerante
vislumbrei quase um brilho…
uma só lágrima azul,
despenha-se interminavelmente
no fosso cultural.
Descortino uma massa purulenta
envolvendo
canhotaortianadextra.
Esta , então , é a casa do amor?
Pestilam odores
dúvidas…
Desço aos cromossomas
todos eles os vinte e três
na procura esbarro no insondável.
Mais raivosamente retorno-me
à supercial parte
faço de conta
que sonhei.

2007-09-22

VICIADO




Meu vício:
Acordar!

Em alegria drogado,
passarinho cantares,
chilreando
entre as diurnas horas,
pardalejando
sítios vários.

À noite
travesto-me
Firmamento.

Alumio-me caminhos,
brilhando,
preparo,
o próximo vício:

Acordar!

2007-09-09

...aperto em coração...


uma masmorra
por fora
brilhoroseante
dentro
penosas argolas
castrantes…

o ar escasseia
deixas-me
plo delírio da posse
ínfimo centímetro cúbico
pra sonhar
agrilhoas-me liberdades
implacável colocas chumbo
nos pés do meu pensamento

até
meu olhar
posto nos pontos sem retorno
dele
queres ser dona
como de um metro de corda
em pescoço de fiel cão amigo
enroscado em teus pés

assim eu…
não sou…

sou tu…
Foto:Pietá Negra, Teo e Francisco Vidal, 2005

2007-09-06

Mulata Jinga



Não há negro mais branco do que eu, dissera o caucasiano, pele de osga.
Entreolharam-se os presentes circundantes, comparando a transparência das palavras dele, com suas epidermes cor.
Pula Seles, o pele de osga, e os circundantes eram amigos. Cresciam juntos. Como sempre, estavam juntos bebendo kimbombo, vendo por de sóis a adormecer, espreguiçados nas tábuas do pontão, mar adentro.
Xéé... Pula Seles! Tás fora do contexto! Como negro mais mais branco do que tu? Nascia uma certa raivazinha em Mulata Jinga cada vez que ele, começava a trocar palavras.
Perdido em algures, Cafuso Ndambi-a-Ngola, batukava sua conga, âpendice dele. Albina Funji sorriu mirando-os um a seguir outro, enquanto seus brancos dedos, batukavam nas tábuas, acompanhando Kafuso Ndambi-a- Ngola.
Do seu bem entroncado e comprido corpo uma sonora gargalhada largou Fulo Ngola, descendente directo dos Sumbi.
Fulo Ngola e Pula Seles são unha com carne, um dia num mar revolto, salvou-o Fulo Ngola , das profundezas do oceano. Irmanaram-se desde então. Essa de " negro mais branco" ia dar maka com Mulata Jinga, pensou Fulo Ngola.
Pula Seles olhou na amada íris de Mulata Jinga, perscrutando aceitações corporais, viu sómente brilhos e pousando sua mão, sobre a pele quente de um castanho belo indefinido, no braço dela, apertando-o docemente, perguntou:
Por acaso conheceste minha mãe ou pai?

É verdade! Lembrou Kafuso Ndambi-a-Ngola, parando o batuque. desde cadengues que nos conhecemos, mas realmente só me lembra mesmo é ver-te andar por aí. Dormias e comias em sítios diferentes tal como hoje. Um dia até te vi sentado com o mais velho Ximbueko, fumando cachimbo.
Dos outros a história era igual. Nenhum deles se lembrava dos pais de Pula Seles.
Então!!? Posso até ser família, um irmão de Albina Funji? Pergunta Pula Seles. Também não me lembro quando nasci, quero dizer o próprio dia do umbilical corte...

Lembro sim ,pessoas, Conda, o cheiro da terra. Sabem meus irmãos o nosso Kwanza Sul tem um sitio, onde vocês falam directamente com o vulcão. Lembro também ouvir dizer do kota Mpindi, que eu era filho da estação Nsasu. Saí da Conda com quatro anos para junto de vocês.

Mais uma sonora e mais longa gargalhada de Fulo Ngola. Era por isto que ele gostava do Pula Seles. Pula Seles fazia-o rir e como ele adorava rir.

Tu irmão da Albina Funji? Não andas a fumar liamba a mais? Perguntou Kafuso Ndambi-a-Ngola, reatando a batukada agora mais suavemente; eu conheço os pais dela: a negra Bumba e o negro Temba-Ndumba.

Mas espera aí intervém Mulata Jinga. Que é que a Conda , a Albina Funji, tem a ver com o "negro mais branco?

Xéé!... Mulata Jinga... não esbraveja! Falou Fulo Ngola aconchegando um abraço nos ombros dela. O Pula Seles não tá falando de pigmentação. Tu por exemplo gostas de fado e fado não é música de negro; pele de jacaré não está no corpo do leão; noite não é dia. O Pula Seles não gosta de fado, gosta é de batuke, nessa base ele é " o negro mais branco".

Ficou no ar o batuke , agora, mais entusiasmante de Kafuso Ndambi-a-Ngola. Albina Funji olhou com olhos de sonho o horizonte tingindo-se de fogo. Fulo Ngola, retirando o abraço de Mulata Jinga, recostou-se no monte de cordas e riu saudávelmente. O olhar de Mulata Jinga chispou mais brilhos em Pula Seles.

Pula Seles fechou os olhos e rebolou com Mulata Jinga, por sobre as areias escaldantes, esvoaçando carícias na ânsia de que ela visse a negritude de sua alma, provocado pela sua indiferença.

NGAFA NI NZAL'Ê !