2007-08-29

MBONDO e MUKUA


O Sítio, um desses Buracos do Mundo, ao nível das águas, tropical seco e de altitude, sub-sahariano circundado de gigantescos Morros, numa área diametralmente exposto em mil por mil metros… mais ou menos.
Num dos lados do Buraco, não havendo Morro, a vista abria-se… logo ali o Rio Ngunza. Tem crocodilos e cresce alagando terras, fazendo pântanos, marcando fronteira com enorme e intenso Palmal que se estendia para trás do horizonte. À esquerda , salinas areias duneando até ao Oceano: O Atlântico.

Mbondo habita o centro deste Buraco. Suas extensas raízes serpenteiam caminhos, encontros com Ngunza, o Rio. Ngunza marca o ritmo do Buraco com seus humores de cheias; é ele que prolonga Mbondo para outras vidas e lugares, ligando-o a Izda seu parente próximo. Tem outras espécies à sua volta: Piteiras, Capins, outros seus iguais, mais pequenos. Ele é o “ Mais Velho” O Sekulo do Sítio. Seus vinte metros de altura e um tronco com oito vigorosos metros de diâmetro, sustentavam dois mil e quinhentos anos de idade. Adquirira um equílibrio biomecânico notável. Realizador exímio de Folhas , Flores e Frutos, mitigara da fome e sede as mais variadas espécies, curara doenças. Crianças riram e brincaram com suas Bonecas Flores. Presenciara Mbondo as guerras entre os Kibalas, os Ngoias Musseles, os Mussumbas e Bailundos… os Brancos aparecendo…
Morria gente . Até chamaram ao Buraco “ o cemitério dos brancos”, mas morria gente Negra também; o Paludismo matava mostrando ser uma verdadeira identidade multiracial. Presenciara também as vindas máquinas começando a triturar o Dendém, escravos tráfegos, batuques ecoando Óbitos e Ritmos nas encostas dos Morros.
Conhecia ele bem “o fazer” daquela espécie Negra e Branca. Na primeira metade do século vinte, tem receios, cansado de desilusão. Soubera ( ano 1941) que os seus irmãos da Áfrika do Sul eram declarados árvores protegidas, ironias dos desígnios e destinos.

Mukua como realização máxima e última de Mbondo: o Fruto. Mukua é a continuidade do todo de Mbondo. É ela que, com seus Jitongos lhe oferece a continuidade. Tem assim Mukua o Espírito do todo, a capacidade de chegar a todas as partes e ligações de Mbondo. Desde sempre que o acompanhava, sua amorosa fiel dedicação tinha dois mil e quinhentos anos.
Mukua sabe-se feminina, sua fecundidade atesta-o. Percorrera vezes sem conta as raízes de Mbondo até ao Rio Ngunza, aos Oceanos. Dormira Mukua, no cerne do tronco, formado por camadas concêntricas de tecido branco e esponjoso. Sentira a leveza de Mbondo. Em seus longos e cinzentos primeiros ramos constatara a vigorosa segurança. Nos ramos e folhas verdes descansava ela no topo do Mundo. Admirava sobretudo a forma como ele fazia rir as Crianças oferecendo-lhes cálices esverdeados de brancas flores.
Mukua lia o pensamento de Mbondo. Sabia de seus receios e cansaço. Sua fêmea intuição receava também.

Um dia Suku-Nzambi, Deus supremo da natureza, convocou Kiximbi. Suku- Nzambi conhecia os pensamentos de Mbondo e Mukua. Sabia da chegada das explosivas cargas, das caterpilares potências carnívoras de destruição. Mbondo era forte mas iria sucumbir às lagartas do progresso. Suku-Nzambi como todos os Deuses deixará o futuro acontecer. Além disso Nkondi e Nkosi , espíritos do Mal, deles provêm todo o mal aos humanos, andam por aí… Mbondo e Mukua serão derrubados, mas preservaremos seus Cernes e Espíritos metamorfeseando-os. Prepara-os para o Acto indicou Suku-Nzambi a Kiximbi.

Kiximbi é um dos “Espíritos das Águas”, entidade reguladora dos Mares, Rios, Peixes, das Marés. Está ligada á fecundidade feminina. As águas são as guardiãs da sabedoria do Buraco, alguns chamam-lhe agora Novo Redondo, mas para Kiximbi o Buraco é e será sempre Ngunza. Dotada do Livre Arbítrio concedido por Suku-Nzambi, começou a preparação de Mbondo e Mukua para os certos e vindouros tempos.
A Mukua concedeu-lhe o Dom da receptividade e da observação. A Mbondo o do sofrimento e ressurreição, ainda na primeira metade do século vinte. Como entidade das águas levou-os por Mares e Oceanos chuveando-os e evaporando-os nos mais recônditos e díspares caminhos da esperança e aceitação.
No dia que antecedeu a prevista chegada dos explosivos e do caterpilar, Kiximbi, fazendo uso de seus plenos poderes, apresentou-se envolta por clarões e redemoinhos de água e de ar. Chuva, mais chuva, muita chuva, Água caindo, lavando as profundidades das coisas visíveis. Tempestade Tropical. Ao quarto dia, um pequeno raio trovejou no Kibalo de Mukua, abrindo-a, para a saída dos Jitongos, vertiginosamente atirados para um tremendo e último redemoinho que se elevou para lá do Céu, espalhando-os de seguida pelos lugares do Mundo. Áquele Jitongo , no berço da Welwitschia Mirabilis, aprenderia a resistir, chamou-lhe Kim da Magna.
Sossegou Kiximbi as águas e ventos, ao quinto dia o Sol raiou. Á ferocidade da máquina, o ventre esventrado pelos explosivos, Mbondo deixara-se cair da sua Biomecânica, com as brancas flores entre ramos, sorrindo, continuou a metamorfose. Suas raízes nos dorsos dos Jitongos alcançara outros lugares, outras certezas. Três dias e três noites, sem parar, os Morros batucaram Ritmos, celebrando o momento.
Suku-Nzambi viu naquele dia Nkondi e Nkosi sorrindo nos dentes de ferro da máquina que derrubara Mbondo. Escreveu logo ali nas pétalas do tempo palavras mais tarde reveladas por um poeta.

Mbondo!
Reveste-se novamente
impeça um raio solar
passar
traga-nos sua sombra
e deixe-nos repousar
solenemente
a toda a hora
sem guerrear.

(Luís Miguel, poeta Angolano, anno 2006)




Mukua- fruto do Imbondeiro
Mbondo- Imbondeiro
Kibalo- Casca da mukua
Boneca- flor do imbondeiro
Jitongo- semente do Imbondeiro
Morro-elevação de terra achatada no topo
Palmal- Grande extensão de palmeiras

2007-08-22

KIXIMBI

Com seus panos,
partiosa,
manhã cedo, se apressa,
morro acima.
Ku leba, quase nzumbi
num võo kimbiâmbico.
Kianda, na calema,pois
do outro lado o mar.
Longe do kimbo,
saudades da Mafumeira,
plantada no muxito,
longe... longe.
Regressa molhada,
do mar, morro abaixo,
bungulando.
Um olhar no kabidi,
afagando os olhos tristes,
do cassula, chegas,
qual Kiximbi.
Contigo,
a Luz.

Kim da Magna

2007-08-19

CÁUSTICO

Chapada do sofrimento, é pouco.
Soco contundente encaixo do ensinamento das,
comuns valas,
corpos putrefactos, terra para cima.
Pretensão das
ocultações dos factos.
Soco contundente, é pouco
catadulpas de socos, nocauteado O Alento
deixa-se cair.
As cardadas botas, rasgam
sangrentos sulcos tombando O Ideal,
águas tingindo avermelhadas,
as mesmas, As Àguas onde me lavo das,
colectivas,
meas culpas, da raça humana ,
periclitante,
trapeziando desiquilibrantes razões.
Estupores desalmados, que O Raio,
fira a imberbe eloquência das,
vossas demenciais ideias.
Cinzas cobrirão os palácios
habitáveis de sobranceiras friezas,
Vergarei vossa verve,
ressuscitando de vós, sempre,
como imaculada branca folha
triunfante,
por entre a negritude das,
negras páginas homosapienas
teimando em nos ensinar
pestilências.